sábado, abril 08, 2006

Play it again, Sam! (1ª parte)




Como era mesmo o nome dele? Passado quase trinta anos, não conseguia se lembrar com tanta facilidade deste detalhe, mesmo acordando todas as manhãs ao seu lado. Olhava à sua direita, já que gostava de dormir do lado do coração - superstição, coisas de mulher, sabe-se lá – e tinha a mesma sensação de desconforto. Sentava-se na cama e com muito cuidado para não acordá-lo, descobria o corpo envolvido pelos lençóis. Observava de um jeito minucioso, como um detetive a descobrir as pistas de um crime, os detalhes que já vira mais de um milhão de vezes. Às vezes até reconhecia alguns como, por exemplo, a cicatriz da cirurgia do acidente de carro que quase o matara desprevenido, porque afinal de contas, a morte, quando quer aparecer, não avisa a ninguém mesmo, não é não? E também aquele cheiro! Conseguia lembrar mais dos cheiros das coisas do que das coisas em si. Não dava muita importância aos registros oficiais das pessoas, como nomes, sobrenomes, coisas do tipo, porque sempre mentiam sobre elas. Não confiava nas palavras escritas, ditas ou oficializadas. Mas os cheiros não. Confiava que cada coisa tinha seu aroma próprio. Sabia do cheiro dos medos, das alegrias, dos interesses escondidos e até dos pensamentos guardados no bem no fundo das almas das pessoas.

Sandra Porto

Fonte: Imagem: http://www.getty.edu

domingo, março 26, 2006

Ilógica



Precisou sair depressa para pegar um caderno onde pudesse jogar todos aqueles murmúrios que inundavam o quarto semi-iluminado pelo abajur de minarete que repousava ao lado de sua cama solitária. De vez em quando levava as mãos ao rosto para disfarçar o tumulto interno que aquela situação provocava. Dar-se à confissão deste momento como pulsante não era, realmente, o que a faria feliz. Pensava já ter passado – como um gato com suas nove vidas – facilmente por essa estranha sensação de nada a fazer. Mais uma vez amor...A sombra rápida e deslizante a convocava a cercar a questão com delicadeza e sobriedade embora não soubesse ao certo para que. Talvez estivesse a criar um novo hábito em substituição à tão conhecida fuga pela tangente, coisa que não mais satisfazia sua premente erupção em fogo e lava. O hábito não faz o monge, lembrou em desespero. Acreditava nestas coisas ditas de pai para filho, maldições seculares, heranças obscuras, assim, assim, terminando por se surpreender numa prisão de dogmas e crenças onde a chave para o libertas desaparecera fazia tempo. Quae sera tamen... Quem sabe o monge não usasse mais o hábito. Seria uma solução enquanto trocava as letras das palavras antes tão fáceis de se mostrarem através daquele lápis vermelho e negro. Estranha escrita, colorida e soturna.

Começara à toa, como achava que havia vivido até então, deixando que as frases nascessem sem muito pensar ou articular na lógica ou ausência dela, linguagem conclusiva, fechada, orientadora. Caso fosse surpreendida nesse instante por alguém curioso e inoportuno – condição natural ao sujeito – não saberia responder à questão alguma. A falta de objetividade às vezes a irritava profundamente. Era como se fosse lançada numa aventura sem mapa, bússola ou outra ferramenta qualquer de orientação. A noite também não a conduzia pelo deserto de si mesma, já que as estrelas se escondiam diante do tempo indeciso, confusas que ficavam diante da dualidade inverno e verão. Nada escapava a esta balança sem... A palavra faltara. Entendia pelo conhecimento anterior sobre os nomes das coisas que, para se ter a medida exata era preciso existir o ponto de sustentação de onde tudo partia e, certamente, para onde tudo voltaria. O fiel da balança. Quanta ironia, cogitava! A palavra ausente, traindo a quem a possuía, mostrara-se tão desleal quanto infiel. Prato cheio para uma análise, ato falho dentre todas as falhas de uma noite sem sono.

Sandra Porto

Imagem: CCB - Fotógrafo: Rui Romão

URL: http://ubbibr.fotolog.com/bichinhodafruta

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

A janela.















Aquela era uma janela antiga, com suas tábuas encravadas e tortas, sugerindo resistência e desistência ao mesmo tempo. Não se poderia saber ao certo a quê resistiram, pois a história muda de suas frestas só conseguiam suspirar baixinho os seus resmungos. Ao mesmo tempo, o diálogo leve e florido com as cortinas daquela casa aparentemente sem gente permanecia num querer fluido e sem jeito, na tentativa de reavivar a memória das coisas inertes que poderiam dar nexo ou mesmo contar na prosa viva dos tempos, os tropeços e esperas de alguém que, certamente, ali habitara...
E não era somente a janela que falava. Não era apenas a cortina florida que se balançava com o vento que entrava pelos buracos do vidro quebrado. A porta se abria para a entrada de qualquer coisa que pudesse trazer algo que lembrasse o que uma vez havia ali habitado: vida. E então por entre suas pernas tortas e finas de madeira, por entre os buracos esculpidos pelos cupins, entravam folhas e flores, formigas, gafanhotos e qualquer nuvem passageira que procurasse abrigo. Tudo era bem vindo e todos tinham passagem.

A pintura das paredes era por si só um capítulo à parte. Descamava de um lado, enquanto de outro procurava agarrar-se a todos os buracos do concreto que pulsava por baixo de todas as cores que já haviam sido empilhadas, uma por cima da outra, "mudanças de humor", como a dona que ali morara um dia gostava de chamar. E então a tinta soltava-se como pele, deixando à mostra apenas as cicatrizes de algo que havia se tornado (aos poucos) nada além do que as cinzas das brasas que arderam outrora (como quase tudo neste mundo...). E, como tudo se tornou -- cinza -- também as paredes mereciam o mesmo fim. Concreto aparecendo por baixo dos nacos grossos de camadas de humores, dia a dia sufocando a outra metade que se agarrava à esperança de que alguma coisa algum dia viria.
Sandra Porto.
Colaboração:Alessandra Archenar.
Fonte:

sábado, janeiro 14, 2006

A Dança




















"Mas depois que cantarolou a sua canção e se escondeu num apertado canto da sala, começou a provar a alegria de sua solidão. Tal alegria, que no começo da noite lhe parecera falsa e trivial, era como um ar acariciador, passando alegremente pelos seus sentidos, escondendo dos outros olhares a agitação febril do seu sangue, enquanto por entre os dançarinos que circulavam e por entre a música e as risadas, o olhar dela vinha direto ao seu canto, adulando-o, zombando, procurando, excitando seu coração."

James Joyce, in Retrato do Artista Quando Jovem, ed. Civilização Brasileira.

Fotografia: Henri Cartier-Bresson.

Fonte: http://www.bregler-fotografien.de

quarta-feira, novembro 30, 2005

Espelhos




















XLVI


Talvez eu seja
O sonho de mim mesma,
Criatura-ninguém
Espelhismo de outra
Tão em sigilo e extrema
Tão sem medida
Densa e clandestina

Que a bem da vida
A carne se fez sombra.

Talvez eu seja tu mesmo
Tua soberba e afronta.
E o retrato
De muitas inalcançáveis
Coisas mortas.

Talvez não seja.
E ínfima, tangente
Aspire indefinida
Um infinito de sonhos
E de vidas.

Hilda Hilst, in Cantares. Ed. Globo.
ue des Gobelins.
Fotógrafo: Eugenène Atget.


Fonte da Imagem: http://www.masters-of-photography.com

sexta-feira, novembro 25, 2005

As Cidades e as Coisas
















Exílio


Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades.


Sophia de Mello Breyner, in Poemas Escolhidos. Companhia das Letras.
Fotógrafo: Eugene Atget

Fonte: http://www.bregler-fotografien.de

sábado, novembro 19, 2005

O amor tem sabor.






















O Amor

Deus - talvez esteja aqui, neste pedaço de mim e de ti, ou naquilo que, de ti, em mim ficou. Está nos teus lábios, na tua voz, nos teus olhos, e talvez ande por entre os teus cabelos, ou nesses fios abstractos que desfolho, com os dedos da memória, quando os evoco.

Existe: é o que sei quando me lembro de ti. Uma relação pode durar o que quiser; será, no entanto, essa impressão divina que faz a sua permanência? Ou impõe-se devagar, como as coisas a que o tempo nos habitua, sem se dar por isso, com a pressão subtil da vida?

Um deus não precisa do tempo para existir: nós, sim. E o tempo corre por entre estas ausências, mete-se no próprio instante em que estamos juntos, foge por entre as palavras que trocamos, eu e tu, para que um e outro as levemos conosco, e com elas o que somos, a ansia efémera dos corpos, o mais fundo desejo das almas.

Aqui, um deus não vive sozinho, quando o amor nos junto. Desce dos confins da eternidade, abandona o mais remoto dos infinitos, e senta-se aos pés da cama, como um cão, ouvindo a música da noite. Um deus só existe enquanto o dia não chega; por isso adiamos a madrugada, para que não nos abandone, como se um deus não pudesse existir para lá do amor, ou o amor não se pudesse fazer sem um deus.



Nuno Júdice.

Fotografia: Lovers in Bistro, Gyula Halasz Brassai.

domingo, novembro 13, 2005

Tudo Passa


















"Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso às vezes, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como “estou contente outra vez”. Ou simplesmente “continuo”, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicídio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim – nós, não. Contidamente continuamos. E substituímos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”. Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência."
Caio Fernando Abreu, in Caio 3D: O essencial da década de 80, Ed. Agir.
Fotografia: Freezer, William Eggleston.

terça-feira, novembro 08, 2005

Iconoclastia


















Há imagens que vagueiam por dentro de nós, como se procurassem alguma coisa, ou apenasque as fixemos à realidade do ser. Como esses cães que correm pelos campos,sem destino certo, não se interessando sequer pelos coelhos que espreitam de dentro da terra, as imagens farejam um fumo longínquo, a mensagem nascida não se sabe de onde, e tentam traduzi-la: mas são mudas, limitando-se a movimentos vagos no ar do espírito. As imagens não trazem consigo nenhum significado, atropelam-se na precipitação das luzes, e nem a morte nem a vida lhes dão esse último sentido que a crença num deus poderá justificar. Então, parto essas imagens: uma a uma, com a lentidão monótona de quem sabe que esse trabalho é para ser feito, junto com os estilhaços no canto da casa, e admiro subitamente a brancura das paredes, o quadro limpo do céu por trás da janela, e tento esquecer o gemido, como se um animal ganisse para dentro, que nasce no fundo de mim, onde um gesto antigo me obriga a colar esses restos.

Nuno Júdice, in Por Dentro do Fruto a Chuva.
Imagem: Fitinhas, por Ananda Porto.

domingo, novembro 06, 2005

Deus é Naja.




















"Estás desempregado? Teu amor sumiu? Calma: sempre pode pintar uma jamanta na esquina.
Tenho um amigo , cujo nome, por muitas razões, não posso dizer, conhecido como o mais dark. Dark no visual, dark nas emoções, dark nas palavras: darkésimo. Não nos conhecemos a muito tempo, mas imagino que, quando ainda não havia darks, ele já era dark. Do alto de sua darkice futurista, devia olhar com soberano desprezo para aquela extensa legião de paz e amor, trocando flores, vestida de branco e cheia de esperança.
Pode parecer ilógico, mas o mais dark dos meus amigos é também uma das pessoas mais engraçadas que conheço. Rio sem parar do humor dele- humor dark, claro. Outro dia esperávamos um elevador, exaustos no fim da tarde, quando de repente ele revirou os olhos, encostou a cabeça na parede, suspirou bem fundo e soltou essa: -"Ai, meu Deus, minha única esperança é que uma jamanta passe por cima de mim..." Descemos o elevador rindo feito hienas.
Devíamos ter ido embora, mas foi num daqueles dias gelados, propícios aos conhaques e às abobrinhas. Tomamos um conhaque no bar. E imaginamos uma história assim: você anda só, cheio de tristeza, desamado, duro, sem fé nem futuro. Aí você liga para o Jamanta Express e pede: -"Por favor, preciso de uma jamanta às 20h15, na esquina da rua tal com tal. O cheque estará no bolso esquerdo da calça". Às 20h14, na tal esquina (uma ótima esquina é a Franca com Haddock Lobo, que tem aquela descidona) , você olha para esquina de cima. E lá está- maravilha!- parada uma enorme jamanta reluzente, soltando fogo pelas ventas que nem um dragão de história infantil.
O motorista espia pela janela, olha para você e levanta o polegar. Você levanta o polegar: tudo bem. E começa a atravessar a rua. A jamanta arranca a mil, pneus guinchando no asfalto. Pronto: acabou. Um fio de sangue escorrendo pelo queixo, a vítima geme suas últimas palavras: -"Morro feliz. Era tudo que eu queria..."
Dia seguinte, meu amigo dark contou: - "Tive um sonho lindo. Imagina só, uma jamanta toda dourada..." Rimos até ficar com dor na barriga. E eu lembrei dum poema antigo de Drummond. Aquele Consolo na Praia, sabe qual? "Vamos não chores / A infância está perdida/ A mocidade está perdida/ Mas a vida não se perdeu" –ele começa, antes de enumerar as perdas irreparáveis: perdeste o amigo, perdeste o amor, não tens nada além da mágoa e solidão. E quando o desejo da jamanta ameaça invadir o poema – Drummond, o Carlos, pergunta: "Mas, e o humor?" Porque esse talvez seja o único remédio quando ameaça doer demais: invente uma boa abobrinha e ria, feito louco, feito idiota, ria até que o que parece trágico perca o sentido e fique tão ridículo que só sobra mesmo a vontade de dar uma boa gargalhada. Dark, qual o problema?
Deus é naja - descobrimos outro dia.
O mais dark dos meus amigos tem esse poder, esse condão. E isso que ele anda numa fase problemática. Problemas darks, evidentemente. Naja ou não, Deus (ou Diabo?) guarde sua capacidade de rir descontroladamente de tudo. Eu, às vezes, só às vezes, também consigo. Ultimamente, quase não. Porque também me acontece – como pode estar acontecendo a você que quem sabe me lê agora - de achar que tudo isso talvez não tenha a menor graça. Pode ser: Deus é naja, nunca esqueça, baby.
Segure seu humor. Seguro o meu, mesmo dark: vou dormir profundamente e sonhar com uma jamanta. A mil por hora."
Caio Fernando Abreu.
Fotografia: Ananda Porto de Almeida

quinta-feira, outubro 27, 2005

Mini-Conto Oriental


Escuto teus ventos e tuas brisas. Quem dera fosse surda aos murmúrios do porto...
Meus dias são repletos de dúvidas e incertezas, como se fora um sibilo sem fim afetando a capacidade de responder aos apelos. Ensurdecedor este silêncio que me acaricia o pensar. Quando assim acontece, as possibilidades de respostas ficam assustadas, tal como as crianças que temem o abandono de suas mães e, desprotegidas, se escondem sob as fantasticamente seguras e invioláveis cobertas. O tempo também não se faz amigo nestas horas de resoluções implacáveis e às vezes se torna necessário burlá-lo para o retorno da contemplação alegre e pacífica. Por um ato de misericórdia dos deuses, a beleza e a delicadeza, que nascem dos divinos gestos jamais perdidos na memória dos imortais, são irmãs generosas, definitivamente instadas neste caduco existir. As letras, arrumadas de uma forma quase tocável, tornam-se autônomas, possuidoras de inteligência irrefreável e brilhante, rebeldes que são de seu criador. Fechando-se num modelo de complexa enquadratura, a narrativa fica impedida de continuidade.
O intervalo no tempo da vontade que originou a declaração tão fresca e benfazeja, sofre a ameaça nebulosa da perspectiva do abandono e do esquecimento. Nestes momentos o porto torna-se não crível. Perdida talvez a lembrança de tudo. Quem sabe? Certas coisas não são re-inauguráveis a não se pela insistência tola de um desejar compulsivo no existir de um sopro de vida que tenta, nas bravatas dos mares crespos e morenos que separam continentes e raças, se fazer ouvir. Aparecer e desaparecer, ao gosto dos ventos e das ondas pode ser uma solução provisória, mas oportuna. Embora o enjôo deste pendular acontecer contínuo, a sensatez precisa da legalidade a fim de construir caminhos sobre as águas. Soberba presunção! A nada se dirigem os dias de insanos esgares textuais, gerados a sopapos, no meio da tarde de sufocados vapores, querendo estar em qualquer lugar que não aqui!

O samurai, envolto em seu branco quimono, realiza a morte honrada. E resgata sua dignidade.



Imagem: Femme de Saint-Lazare par clair de lune, Pablo Picasso.

Fonte: http://csdll.cs.tamu.edu:8080/picasso







sexta-feira, outubro 21, 2005

Despertando
























Raio de luz
Caminho de estrelas
Mergulho o infinito
Assim é.

Pedaço de terra
Brotando as sementes
Doce alimento da vida.
Assim existo.

Fibras palpitando
Incessantes
Pedidos sem eco.
Assim sofro.

Música do espaço
Acordo meu sono
Eterno.

Desperto o amor.

Fonte: http://www.absolutearts.com




quarta-feira, outubro 05, 2005

O fotógrafo


























Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei.
Eu conto: Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa. Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carrega-dor?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral
de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi um lesma pregada na existência
mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no
olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a
desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou para mim que ela andava na
aldeia de braços com Maiakovski -seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma
roupa mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.


Manoel de Barros

Fotomontagem: Ananda Porto



sábado, outubro 01, 2005

Mundo Pequeno

Posted by Picasa












O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latasmaravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidascom aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, osbesouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos.


Manoel de Barros.


Fotografia: Joaquim da Cunha Bueno Marques.

sexta-feira, setembro 30, 2005

Psicografia


Não consigo rever aquilo que me assoma a alma, num momento de destruição e encanto.

Arremedos de poemas caem do nada, como chuvas sem sentido pela minha mão a deslizar no amplo deserto de linhas.

Não sei o que faço, mas tenho que fazê-lo.

Poderia se chamar a isto um outro, que de mansinho – mas não mansamente – chega para me mostrar algo que não sei o que é.

Pode ser um caminho que tenho de percorrer agora.

Pode não ser nada além da minha tola imaginação que anseia a amplidão dos lugares onde os sábios de mim se escondem.

Pode ser que seja apenas um imenso vagar de minha mente desonesta e faceira, que a um só tempo brinca com meu sorriso e me acusa com sardônicos dentes de pérolas.

Pode ser. Pode não ser.

Tudo é. Tudo não é.

Aqui, sou.
Pintura: Farewall to Lincoln Square, Raphael Soyer.

quinta-feira, setembro 29, 2005

Praia do Icaraí























Na Praia do Icaraí, Paulinho da Viola encerrava a semana do chorinho no Rio de Janeiro cidade maravilhosa, no dia do santo guerreiro, na praia de Icaraí. Começou bem, obrigado, sob uma lua mais do que cheia, cheíssima. Não mais que de repente, a festa foi abençoada por uma tempestade de água benta, vinda diretamente dos batistérios do céu deste Brasil varonil. A multidão espalhada pela areia da noite musical não teve alternativa senão a fuga desordenada, qual formiguinhas assustadas diante da corredeira de açúcar derramada por um açucareiro desastrado. Os sem-teto secos, amantes do artista, abrigaram-se sob os edifícios da maneira que puderam e continuaram a ouvir o samba de viola do Paulinho o qual, por sua vez, impávido como a própria natureza, lá continuou na tranqüilidade que lhe é peculiar feito um Jorge sem medo de dragões ou tisunamis. E cantou. Lindamente!


Eu, preguiçosamente revoltada com a avalanche de camelôs que, inaugurando uma nova tradição no show-business da terra de Araribóia, inundaram a praia com suas ondas de gigantescas barracas feito árabes no deserto e me reservei o direito à sobrevivência contententando-me com a janela de minha tenda na categoria de uma espectadora que não vê (talvez ouvidoura fosse mais correto, se é que esta palavra seja de possível ocorrência). Até porque não daria para ser diferente, já que os aparelhos sonoros quando acionados em sua máxima potência, tornam-se gigantescos amplificadores auditivos para uso daqueles que como eu, candidatam-se nestes dias festivos a uma surdez galopante. Na praia do Icaraí - o do Icaraí é por honra e mérito do noticiário da BandNews sobre o evento - ainda somos aborígines vivendo nas grandes ocas de concreto armado da província de Nikiti. De qualquer forma, entre chuvas e notas musicais, a festa une e re-une toda a tribo, a fim de se cantar a Tupã.


Eventos assim me remetem a infância onde, nos salões da paróquia onde cresci, meu tio libânes, maronita, cristão e congregado mariano, reunia as grandes estrelas da música da década de 60 (e fins de 50), para o deleite da tribo desta época. Diferentes tribos, semelhantes rituais! Vi passar pela minha infância Jackson do Pandeiro com sua altíssima Almira, Ellen de Lima, Ângela Maria e outros dos quais não posso me lembrar agora porque memória de criança é curta, pois não? Imagina só!


Quem poderia dizer que eu, hoje cheia de seletismos musicais, já arrastei um bocado meu corpo ao ritmo de forrós, chá-chá-chás, twists e por aí afora... Pois é. Todo mundo já pecou alguma vez. Mas entre pecados e prazeres vamos traçando as linhas desta sinfonia saudosa, porque eu estou vestida com as roupas e as armas de Jorge, para que meus inimigos tenham pés e não me alcancem, já que não sou boba nem nada.

Fotografia: Joaquim da Cunha Bueno Marques (homenagem póstuma).

terça-feira, setembro 20, 2005

O Engasgo


Sentou-se à mesa da cozinha. Havia sentido necessidade de parar um pouco para respirar. O afã diário a vinha cansando faz tempo, mas não podia dar-se por vencida. Afinal de contas, essa não era uma guerra grandiosa, que valesse a pena ser narrada e que dificilmente renderia uma manchete nos jornais. O peso da batalha só a ela dizia respeito. Somente seu corpo conhecia as canseiras dos embates diários. Somente sua mente sabia das estratégias de adaptação que precisara inventar para sobreviver ao lugar comum. Somente suas emoções reconheciam o esforço que faziam a cada segundo para manterem aquela mulher viável.

Não conseguia mais rir de tudo à sua volta, como sempre se espera das donas-das-casas-pilares-da-família. De vez em quando engasgava no meio de uma palavra, numa conversa à toa ou nas refeições compartilhadas com os outros. Era um susto só. A impossibilidade momentânea de continuar no fluxo da vida deixava a todos em desespero. Faziam uma confusão horrorosa, gritavam por seu nome, chamavam por São Brás e batiam em suas costas. Nestes momentos, quase cianótica e num estado estranho de consciência, ria-se por dentro.

Em rápidos segundos olhava para os rostos apavorados, sem referência, e se sentia feliz. Perguntava-se como não conseguiam ver o que estava acontecendo. Geralmente colocavam a culpa do engasgo na água ingerida às pressas, ou no alimento mal cozido que ela mesmo havia preparado. Era engraçado olhar para as técnicas que usavam para trazê-la de volta ao controle de si mesma. Algumas vezes levantavam seus braços para o alto – numa posição de vítima de assalto à mão armada – e, aos berros, mandavam-na ficar calma. Em outras, pegavam-na por trás e apertavam seu diafragma com uma força descomunal, acreditando que assim expulsariam o demônio que a estava atacando. Entre exorcismos e histerias pensava em como seria prolongar aquele estado de semibeatitude no qual sempre se envolvia, mas que nunca consumara. Foi quando a idéia lhe ocorreu.

Começou a pensar nas razões que os outros davam para tais eventos que, de uma forma ou de outra, os tiravam de suas anestesias dando-lhes assunto para a conversa da refeição seguinte. Na desculpa do alimento, entrevia uma possibilidade de resolução definitiva. Precisaria avaliar cuidadosamente e com critérios precisos, que tipo de ingestão poderia resultar no engasgo definitivo ao qual tanto ansiava. Daria uma mãozinha ao inevitável pensava para aliviar a consciência quando uma pontinha de culpa aparecia em seu pensar.

Passara a observar cada alimento com olhar curioso e atento. Avaliava as texturas, sentia seus cheiros, deslumbrava-se com suas cores, media os seus tamanhos. Afinal de contas, se ela queria engasgar para sempre, que fosse hollywoodiano. Os critérios confundiam-se em sua cabeça. Estéticos ou funcionais? Sem perder muito tempo em questões triviais para seu contexto, optou pelos dois. Uniria o útil ao agradável. Juntaria a beleza com a praticidade. Não era uma mulher qualquer. Primara sempre pela organização aliada à harmonia. Uma sensação de triunfo percorria todo seu corpo: sentia-se como um designer de interiores moderno apreciando a conclusão de um difícil projeto de decoração. A noção de autoria incomodou-lhe um pouco. Na verdade a idéia não havia sido sua. Mas quem ligaria para tal questão moral neste momento? Todos os sucessos acontecem por acaso mesmo, pensou. Às vezes as grandes idéias surgem do mais surreal dos lugares e das mais bizarras pessoas. Não se preocuparia mais com pequenas coisas. Precisava resolver todas as pendengas éticas para usufruir seu cinematográfico the end.

Naquele meio-dia, ela sentou à mesa da cozinha. Havia sentido necessidade de parar um pouco para respirar. Sorriu intimamente. Olhou para a fruteira, escolheu uma banana e com os olhos cheios de radiante felicidade, a devorou.

Afinal de contas, ela era brasileira.

Pintura: Tea-Drinking, Andrey Ryabushkin.


segunda-feira, setembro 19, 2005

Segunda-feira Insana




















Velas e lúmens tremulam
Neste embaçado dia que nasce.
Distorcem as imagens e as faces
Dos crentes e ateus sem propósito,
Neste estranho desfile urbano.

Sem vírgulas, pontos ou reticências
Passamos sem forma e em fila
Pelos cantos das ruas de asfalto
Cantando e cantando e cantando.

Nos rostos e nos olhos lavados,
Pelas gotas da chuva que cai,
Misturam-se as lágrimas, represas
Libertas de prisões seculares.


Não somos os mesmos passando.
Sem peso, só sombras e mistérios roubando.


Os gritos, os gritos, os gritos.


Pintura: Elisabeth Gerhardt Sewing, August Macke


domingo, setembro 18, 2005

Silêncio




















No meio da noite,
No silêncio, onde alguma coisa cai,
Procuro os rumores de uma alma.

No meio da madrugada,
Depois do transe, do êxtase,
Procuro pelos silêncios e pelas almas.

No meio da alma
Depois da vigília, dos olhos abertos,
Procuro a noite da madrugada.

Nada vejo,
Nada acho.
Mas sei que lá estão
Os rumores, os êxtases, os silêncios.

Sei que lá está


Sua alma.



Pintura: Fumeé d'Ambre Gris, John Singer Sargent.

sábado, setembro 17, 2005

Os Elefantes da Índia




Sentada em suas almofadas preferidas ela olhava para a parede à sua frente. Alguns elefantes tremulavam no pano da Índia. Uns outros, multicoloridos, pendiam sem movimento de um prego enferrujado. Aguardava, sem mais o que fazer. No dia anterior, surgira uma oportunidade para mudar completamente sua vida, mas recusara. Não havia sentido sua alma vibrar com a perspectiva de transformar em vinho sua água cotidiana. Detestava vinhos. O gosto, geralmente ácido do líquido rubro como os lábios de uma sedutora mulher, deixava sua boca amarga como fel e seu estômago doendo. Tolerava bem a água. Saciava sua sede, misturava-se com tudo ou quase tudo. Não a ameaçava em nada.

A sensação de mediocridade a inundava lentamente. Mesmo sem querer prestar atenção nesta armadilha, não conseguiu evitar a auto-análise. Tinha certeza que aquele não era um bom dia para isto. Sabia de si o suficiente para entender que cairia em tentação e que aquele momento se transformaria num calvário. Faria analogias, metáforas, des-construções e não chegaria a lugar algum. O tempo era implacável e talvez suas defesas fossem tão poderosas que justificassem aquele estado de placidez e conformidade. Desconfiando de todas as explicações, decidiu pelo “é assim mesmo...” O que a incomodava mesmo era aquele terrível silêncio, reinando absoluto dentro dela. Mudez insuportável para quem estava acostumada a tantas vozes enfurecidas que faziam parte de seu repertório interior.

Não estava habituada à quietude mental. Achava interessante a reação dos que compartilhavam de seu mundo real. Não entendiam mudanças de humor. Rupturas na normalidade prenunciavam catástrofes. Talvez colocassem em seus ombros uma responsabilidade que ela nunca quisera ter, mas que havia deixado acontecer por deslumbre. O mito do herói sempre a fascinara. Perguntavam-lhe o que estava acontecendo, mas não ousava responder a qualquer questão. O despropósito de tais intervenções frente ao silêncio absurdo a chocava. Estavam de tal forma sem lugar, que pareciam dissolver-se no ar como fumaça depois de proferidas. A curiosidade matou o gato, pensava. Azar o dele.

Continuava muda olhando os nervosos elefantes. Havia aprendido a ouvir os sinais. Demorava às vezes a compreender as mensagens que deles poderiam emergir. Alguns códigos pareciam indecifráveis. Nestes momentos viajava por todas as letras que aprendera a ler. Nenhuma delas os explicava. Tentava fechar os olhos e a mente. Ligava a televisão. Mas nem sempre era possível se livrar dos apelos. Os elefantes eram insistentes. De um lado a inércia, do outro, o movimento. Filosofia oriental? Muito chinês para seu obstinado pensamento. Fácil demais para aquela angústia surda.

Não gostava de coisas reduzidas a fórmulas simples. A tradição existencialista a perseguia em pensamentos, palavras e obras. Mea culpa, mea culpa. Sofria com isto, mas resistia. Talvez se aceitasse o mundo no olhar tranqüilo dos ascetas, quem sabe? Porém sua origem metropolitana a impedia tais vôos. Gostava dos mistérios e dos enigmas nas palavras, dos murmúrios. Entre linhas, costurava seu solitário mundo emaranhado. Constituída que fora pela argamassa da cultura, seus movimentos a restringiam a lugares comuns. Não seria honesto recusar tal herança.

Quando chegava a tal ponto, percebia que entrara num beco sem saída. Procurar explicações neste ritmo funcionava até um certo ponto. Mas como pensar fora disto? As molduras eram rígidas demais. Precisava dos enquadres e ver sem eles tornava seu horizonte amplo em excesso, a tirava da condução de seu processo. Na realidade o assunto não era tão importante assim. Ficava cada vez mais longínquo a cada pedra tropeçada no caminho. Os elefantes, porém não sossegavam. Como arautos caminhando à frente de um exército sem bandeiras, insistiam em anunciar a catástrofe. Soldados sem causa e belos em seus uniformes, faziam seu papel.

Foi aí que resolveu desligar o ventilador.
Pintura: Oriental Rugs, Henri Matisse.