sábado, dezembro 06, 2008

Nas águas de Mário Quintana.



Todos os meus naufrágios me dizem:
morra de medo de tuas lembranças.
Não ouço os conselhos das marés do ontem
e lembro, e lembro, e lembro.
Cada vez, um esforço maior.
Cada vez, uma dor mais aguda.
Cada vez, um grito que abafo sob as lágrimas dos mares.
Cada vez um vôo mais alto, em direção ao sol.


Sandra Porto.

Releitura da poesia de Mário Quintana.


Imagem: Ana Maria Russo.
Fonte: http://www.1000imagens.com/

segunda-feira, novembro 10, 2008

Do Inferno



Começo por aqui, não sei bem porque e também não me importo. Mas talvez deva alguma explicação a quem porventura venha a ter este escrito nas mãos. Chamo de inferno a estas horas vazias no coração. Chamo de inferno a ausência de sentido que faz com que cheguemos num momento e digamos: cadê? Chamo de inferno as ilusões, os amores inventados como desculpa para se viver no mundo com falsos pretextos de existência. Chamo de inferno ter que escolher entre algumas pobres possibilidades que o mundo oferece dentro de seu repertório já montado e de onde se debruça para dizer: quero aquilo. As vitrines são só vitrines. Chamo de inferno o beijo mal-dado, mesmo que seja suculento e onde se acredita conter o sabor do amor. Chamo de inferno a minha visão não periférica das coisas do mundo. Chamo de inferno a minha visão periférica do mundo também. Porque esta dói tanto, tanto... Infinitos particulares, assim somos. Contendo os infernos diários que não queimam visivelmente, mas que te deixam marcas para sempre. Começo a consertar as palavras no hábito servil da mulher que cuida e tem que ser perfeita. A vida em preto e branco. Com nítidas nuances de claros e escuros, mas em preto e branco. Assim como o filme. Assim como o meu olhar agora. Assim como o céu que vejo através de minha janela. Fico pensando, ao tempo em que escrevo, por que as sombras me fazem ter movimento e não a luz. Uma sensação de culpa por estar agredindo o universo com questões que não devem ser levantadas num discursivo mundo de almas sensíveis à extinção do mico-leão dourado e definitivamente cegos aos gritos de dor do universo paralelo que nomeamos de feminino. Coloco vírgulas, pontos, reticências, num texto que grita, que geme, que chora, que se debate, que exige, que luta, que implora: parem com isto, já não estou mais aí, dá para ver? Bem do fundo dos meus infinitos infernos particulares, clamo por justiça. Minha alma é uma flor sensível aos ventos, aos trovões, às tempestades. Minha alma é uma escuta interminável que pede clemência. Minha alma feminina se compadece dessa moça triste e briga por ela. Minha moça triste decide que suas lágrimas regarão a terra seca e gretada pela negligência, pela cegueira, pelo desafeto que habita o coração do homem. E do mais profundo inferno, ela proclama, tal como Júlio César: veni vidi vici. A sorte está lançada.


Sandra Porto - 10/11/08

Imagem: Patrícia Coehn


quarta-feira, outubro 08, 2008

Suddenly Ananda.


Her face is a map of the world, is a map of the world
You can see she's a beautiful girl, she's a beautiful girl
And everything around her is a silver pool of light
People who surround her feel the benefit of it
It makes you calm
She'll hold you captivated in her palm

Suddenly I see this is what I wanna be
Suddenly I see why the hell it means so much to me
Suddenly I see this is what I wanna be
Suddenly I see why the hell it means so much to me

I feel like walking the world, like walking the world
You can hear she's a beautiful girl, she's a beautiful girl
She fills up every corner like she's born in black and white
Makes you feel warmer when you're trying to remember what you heard
She likes to leave you hanging on her world

Suddenly I see this is what I wanna be
Suddenly I see why the hell it means so much to me
Suddenly I see this is what I wanna be
Suddenly I see why the hell it means so much to me

And she's taller than most, and she's looking at me
I can see her eyes looking from the page in the magazine
She makes me feel like I could be a tower, big strong tower yeah

The power to be
The power to give
The power to see, yeah, yeah
She got the power to be
The power to give
The power to see, yeah, yeah
The power to be
The power to give
The power to see, yeah, yeah
She got the power to be
The power to give
The power to see, yeah, yeah



Fonte:

Música: KT Tunstall - Suddenly I see

Site: http://vagalume.uol.com.br/kt-tunstall/suddenly-i-see.html

segunda-feira, setembro 15, 2008

Ontem mesmo!

























"Fico tão cansada às vezes, e digo para mim mesma que está errado, que não é assim, que não é este o tempo, que não é este o lugar, que não é esta a vida. (...)então eu não sentia nada, podia fazer as coisas mais audaciosas sem sentir nada, bastava estar atenta como estes gerânios, você acha que um gerânio sente alguma coisa? quero dizer, um gerânio está sempre tão ocupado em ser um gerânio e deve ter tanta certeza de ser um gerânio que não lhe sobra tempo para nenhuma outra dúvida..."


Caio Fernando Abreu




Fonte: http://caio-fernando-abreu.blogspot.com/

quinta-feira, agosto 14, 2008

Luzes das Cidades



















Inéditos, os dias
Onde se inscrevem as letras
Sem nenhuma preguiça.

As letras fluem
A alma reflete
Almas nas letras.

Dias inéditos
Dias das luzes
Luzes nas almas.

Bons dias.


Sandra Porto.


segunda-feira, maio 12, 2008


"Há sossegos do campo na cidade. Há momentos, sobretudo nos meios-dias de estio, em que, nesta Lisboa luminosa, o campo, como um vento, nos invade. E aqui mesmo, na Rua dos Douradores, temos o bom sono.

Que bom à alma ver calar, sob um sol alto quieto, estas carroças com palha, estes caixotes por fazer, estes transeuntes lentos, de aldeia transferida! Eu mesmo, olhando-os da janela do escritório, onde estou só, me transmuto: estou numa vila quieta da província, estagno numa aldeola incógnita, e porque me sinto outro sou feliz.

Bem sei: se ergo os olhos, está diante de mim a linha sórdida da casaria, as janelas por lavar de todos os escritórios da Baixa, as janelas sem sentido dos andares mais altos onde ainda se mora, e, ao alto, no angular das trapeiras, a roupa de sempre, ao sol entre vasos e plantas. Sei isto, mas é tão suave a luz que doura tudo isto, tão sem sentido o ar calmo que me envolve, que não tenho razão sequer visual para abdicar da minha aldeia postiça, da minha vila de província onde o comércio é um sossego.

Bem sei, bem sei... Verdade seja que é a hora de almoço, ou de repouso, ou de intervalo.. Tudo vai bem pela superfície da vida. Eu mesmo durmo, ainda que me debruce da varanda, como se fosse a amurada de um barco sobre uma paisagem nova. Eu mesmo nem cismo, como se estivesse na província. E, subitamente, outra coisa me surge, me envolve, me comanda: vejo por detrás do meio-dia da vila toda a vida em tudo da vila; vejo a grande felicidade estúpida da vida doméstica, a grande felicidade estúpida da vida nos campos, a grande felicidade estúpida do sossego na sordidez. Vejo, porque vejo. Mas não vi e desperto. Olho em roda, sorrindo, e, antes de mais nada, sacudo dos cotovelos do fato, infelizmente escuro, todo o pó do apoio da varanda, que ninguém limpou, ignorando que teria um dia, um momento que fosse, que ser a amurada sem pó possível de um barco singrando num turismo infinito."


Bernardo Soares, in O Livro do Desassossego- Frag. 437.



Fotógrafo: Nuno Ramos




terça-feira, maio 06, 2008

Houve um poema.


Houve um poema,
entre a alma e o universo.
Não há mais.
Bebeu-o a noite, com seus lábios silenciosos.
Com seus olhos estrelados de muitos sonhos.

Houve um poema:
Parecia perfeito.
Cada palavra em seu lugar,
como as pétalas nas flores
e as tintas no arco-íris.
No centro, mensagem doce
E intransmitida jamais.

Houve um poema:
e era em mim que surgia, vagaroso.
Já não me lembro, e ainda me lembro.
As névoas da madrugada envolvem sua memória.
É uma tênue cinza.
O coral do horizonte é um rastro de sua cor.
Derradeiro passo.

Houve um poema.
Há esta saudade.
Esta lágrima e este orvalho - simultâneos -
que caem dos olhos e do céu.


Cecília Meireles





Imagem: Jimmy Williams

terça-feira, março 18, 2008

Confiança

video

Estação de maio

A salvação opera nos abismos.
Na estação indescritível,
o gênio mau da noite me forçava
com saudade e desgosto pelo mundo.
A relva estremecia
mas não era pra mim,
nem os pássaros da tarde.
Cães, crianças, ladridos,
despossuíam-me.
Então rezei: salva-me, Mãe de Deus,
antes do tentador com seus enganos.
A senhora está perdida?
Disse o menino,
é por aqui.
Voltei-me
e reconheci as pedras da manhã.

Adélia Prado.


Fonte: http://br.geocities.com/edterranova/adelia02.htm