quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Totens Urbanos 2

..."Icaraí,

Que vem desde a Itapuca

Até a subida da Fróes

Icaraí,

Os poetas já não fazem mais Nictheroy

Canto a beleza, lembro o Gentileza

Histórias de rir.

Quanta Saudade,

O meu peito invade do Petit Paris

Eu sei que o tempo não volta

Que o Trolley faz volta no Canto do Rio

E nas areias sereias olhando o Rio

Eu sei que o tempo não volta

E o Trolley faz volta no Canto do Rio

E nas areias, a melhor vista do Rio".




Música Icaraí, do compositor Cilico, gravada pela cantora Beth Carvalho, no CD "Cilico e seus amigos".


Fotos: Sandra Porto.

Totens Urbanos 1

















































Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam
trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.


Adélia Prado.


Fotos: Sandra Porto.

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Totens Urbanos.
























Poema do beco.


Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? — O que eu vejo é o beco.



Manuel Bandeira.

Intervenção nos postes de Icaraí, Niterói, a partir da iniciativa dos artistas do Beco. Realizada em janeiro de 2009, contou com a participação de mais de 50 artistas plásticos de Niterói.



Fotos: Sandra Porto.

sábado, janeiro 10, 2009

Segunda Criatura.


Fel puro. Brevemente descrito, engenhosamente conceituado. Pinto minha boca com batom vermelho, não por luxúria, menos ainda por sedução. Bette Davis renascida das cinzas, tal como uma fênix pós-moderna, mantendo os longos vestidos brilhosos e acetinados, como não? Puro escárnio. Meu dorso tem as marcas dos desesperados pensamentos de repreensão. Culpa cristã? Provavelmente. Não poderia mesmo ser de outra forma. Lembro que estamos na quaresma e rio por dentro ao ver quão entranhado as coisas da religião estão em nós. A história do macaco e do pote de mel. Pois é. Sem remorsos ou vergonhas, ora bolas (como diria Mário Quintana). Na maior cara-de-pau! Porque vergonha é coisa de gente que pensa que não tem lugar no mundo dos homens de ternos pretos, colarinhos engomados, maletas cheias de papéis importantes (pretas também, of course) e decisões que abalam a vida do planeta. Não esta criatura. Ela se dá muito bem obrigada com todo este glamour televisivo. Estes dos plásticos coloridos, objetos descartáveis, monóxidos de carbono, comida que voa pelos balcões dos atendentes formatados como softwares modernos. Dá-se muito bem com a última moda, os dvds, cds, laptops. As muitas mídias. A confusão das ruas é sua trilha sonora. Os barulhos dos carros sua canção de ninar. Fel Bette não conhece as misérias. Gente que passa fome, vestindo-se de trapos, que sofre as dores mais terríveis. Um universo pararelo, coisa de cinema de péssima qualidade, notícia da imprensa sensacionalista afim de vender jornais. Gossip world! Não ela. Suas são as luzes brilhantes, os móveis reluzentes, os ambientes assépticos, as mesas fartas e bem-postas. Suas são as palavras escolhidas, as frases bem estruturadas, todos os erres e esses. Poucas, mas contundentes. O fel que existe em mim te despreza. O mundo com pôr-do-sol não faz sentido na trama desta vida pouco biografada: de seda-pura, evidentemente. O fel que existe em mim se esconde no coração de todos. Afinal de contas, muito poucos tem a bravura de mostrar o seu lado dark da força. Mea culpa, again. Mas quando a noite chega, no escuro do quarto de dormir, sob os lençóis de algodão egípcio, fique atento meu amigo, porque bem baixinho você ouvirá uma música. Sussurada, rouca, cheia da ternura que nenhuma pura Davis poderia transbordar sem se revelar. Um pequeno soprar melodioso que dirá que a felicidade foi embora e que a saudade em seu peito, ainda mora...


Sandra Porto.


Imagem: Bette Davis
Fonte: http://www.doctormacro1.info/

Le petit planète.


Pinto as paredes do meu quarto com as cores de meus presságios. Alguns se revelam claramente, sem hesitações, no lidar diário da vida comum. Outros se apresentam em sonhos estranhos, com tonalidades tão reais que penso estar acordada. Os presságios, que respiram por meus poros, surgem como uma frase dita sem pensar. Como aquelas que quando você percebe, já falou. Na maior parte das vezes, eles não atingem ninguém além de minha própria alma que, nestes momentos, se constrangem em dores inenarráveis. Tal como chuva cerrada, me afogo ao tentar arrancar delas a compreensão. Presságios prescidem de tais atentados. Vêm e pronto. Oráculos pouco desvelados não me ajudam em nada. Condição de existência não escolhida, sofro dos suores em technicolor. Agora mesmo não tenho cor alguma na parede muda de meu quarto. Acostumada a habitar este mundo além do real, estranho o estado do silêncio abismal que se faz em mim. Quem sabe uma nova ordem inaugure esta época diversa em meu pequeno universo e planetas ainda não descobertos constituam a verdadeira declaração sobre mim. Talvez sim, talvez não. A certeza porém do arcanjo a flutuar em amarelos e abóboras me conduz ao ousar da entrega. Sonhares. Presságios virão. E irão embora. Em minha mão um pincel delineará o caminho das estrelas, perto, muito perto de meu coração.


Sandra Porto.

sábado, dezembro 06, 2008

Nas águas de Mário Quintana.



Todos os meus naufrágios me dizem:
morra de medo de tuas lembranças.
Não ouço os conselhos das marés do ontem
e lembro, e lembro, e lembro.
Cada vez, um esforço maior.
Cada vez, uma dor mais aguda.
Cada vez, um grito que abafo sob as lágrimas dos mares.
Cada vez um vôo mais alto, em direção ao sol.


Sandra Porto.

Releitura da poesia de Mário Quintana.


Imagem: Ana Maria Russo.
Fonte: http://www.1000imagens.com/

segunda-feira, novembro 10, 2008

Do Inferno



Começo por aqui, não sei bem porque e também não me importo. Mas talvez deva alguma explicação a quem porventura venha a ter este escrito nas mãos. Chamo de inferno a estas horas vazias no coração. Chamo de inferno a ausência de sentido que faz com que cheguemos num momento e digamos: cadê? Chamo de inferno as ilusões, os amores inventados como desculpa para se viver no mundo com falsos pretextos de existência. Chamo de inferno ter que escolher entre algumas pobres possibilidades que o mundo oferece dentro de seu repertório já montado e de onde se debruça para dizer: quero aquilo. As vitrines são só vitrines. Chamo de inferno o beijo mal-dado, mesmo que seja suculento e onde se acredita conter o sabor do amor. Chamo de inferno a minha visão não periférica das coisas do mundo. Chamo de inferno a minha visão periférica do mundo também. Porque esta dói tanto, tanto... Infinitos particulares, assim somos. Contendo os infernos diários que não queimam visivelmente, mas que te deixam marcas para sempre. Começo a consertar as palavras no hábito servil da mulher que cuida e tem que ser perfeita. A vida em preto e branco. Com nítidas nuances de claros e escuros, mas em preto e branco. Assim como o filme. Assim como o meu olhar agora. Assim como o céu que vejo através de minha janela. Fico pensando, ao tempo em que escrevo, por que as sombras me fazem ter movimento e não a luz. Uma sensação de culpa por estar agredindo o universo com questões que não devem ser levantadas num discursivo mundo de almas sensíveis à extinção do mico-leão dourado e definitivamente cegos aos gritos de dor do universo paralelo que nomeamos de feminino. Coloco vírgulas, pontos, reticências, num texto que grita, que geme, que chora, que se debate, que exige, que luta, que implora: parem com isto, já não estou mais aí, dá para ver? Bem do fundo dos meus infinitos infernos particulares, clamo por justiça. Minha alma é uma flor sensível aos ventos, aos trovões, às tempestades. Minha alma é uma escuta interminável que pede clemência. Minha alma feminina se compadece dessa moça triste e briga por ela. Minha moça triste decide que suas lágrimas regarão a terra seca e gretada pela negligência, pela cegueira, pelo desafeto que habita o coração do homem. E do mais profundo inferno, ela proclama, tal como Júlio César: veni vidi vici. A sorte está lançada.


Sandra Porto - 10/11/08

Imagem: Patrícia Coehn


quarta-feira, outubro 08, 2008

Suddenly Ananda.


Her face is a map of the world, is a map of the world
You can see she's a beautiful girl, she's a beautiful girl
And everything around her is a silver pool of light
People who surround her feel the benefit of it
It makes you calm
She'll hold you captivated in her palm

Suddenly I see this is what I wanna be
Suddenly I see why the hell it means so much to me
Suddenly I see this is what I wanna be
Suddenly I see why the hell it means so much to me

I feel like walking the world, like walking the world
You can hear she's a beautiful girl, she's a beautiful girl
She fills up every corner like she's born in black and white
Makes you feel warmer when you're trying to remember what you heard
She likes to leave you hanging on her world

Suddenly I see this is what I wanna be
Suddenly I see why the hell it means so much to me
Suddenly I see this is what I wanna be
Suddenly I see why the hell it means so much to me

And she's taller than most, and she's looking at me
I can see her eyes looking from the page in the magazine
She makes me feel like I could be a tower, big strong tower yeah

The power to be
The power to give
The power to see, yeah, yeah
She got the power to be
The power to give
The power to see, yeah, yeah
The power to be
The power to give
The power to see, yeah, yeah
She got the power to be
The power to give
The power to see, yeah, yeah



Fonte:

Música: KT Tunstall - Suddenly I see

Site: http://vagalume.uol.com.br/kt-tunstall/suddenly-i-see.html

segunda-feira, setembro 15, 2008

Ontem mesmo!

























"Fico tão cansada às vezes, e digo para mim mesma que está errado, que não é assim, que não é este o tempo, que não é este o lugar, que não é esta a vida. (...)então eu não sentia nada, podia fazer as coisas mais audaciosas sem sentir nada, bastava estar atenta como estes gerânios, você acha que um gerânio sente alguma coisa? quero dizer, um gerânio está sempre tão ocupado em ser um gerânio e deve ter tanta certeza de ser um gerânio que não lhe sobra tempo para nenhuma outra dúvida..."


Caio Fernando Abreu




Fonte: http://caio-fernando-abreu.blogspot.com/

quinta-feira, agosto 14, 2008

Luzes das Cidades



















Inéditos, os dias
Onde se inscrevem as letras
Sem nenhuma preguiça.

As letras fluem
A alma reflete
Almas nas letras.

Dias inéditos
Dias das luzes
Luzes nas almas.

Bons dias.


Sandra Porto.


segunda-feira, maio 12, 2008


"Há sossegos do campo na cidade. Há momentos, sobretudo nos meios-dias de estio, em que, nesta Lisboa luminosa, o campo, como um vento, nos invade. E aqui mesmo, na Rua dos Douradores, temos o bom sono.

Que bom à alma ver calar, sob um sol alto quieto, estas carroças com palha, estes caixotes por fazer, estes transeuntes lentos, de aldeia transferida! Eu mesmo, olhando-os da janela do escritório, onde estou só, me transmuto: estou numa vila quieta da província, estagno numa aldeola incógnita, e porque me sinto outro sou feliz.

Bem sei: se ergo os olhos, está diante de mim a linha sórdida da casaria, as janelas por lavar de todos os escritórios da Baixa, as janelas sem sentido dos andares mais altos onde ainda se mora, e, ao alto, no angular das trapeiras, a roupa de sempre, ao sol entre vasos e plantas. Sei isto, mas é tão suave a luz que doura tudo isto, tão sem sentido o ar calmo que me envolve, que não tenho razão sequer visual para abdicar da minha aldeia postiça, da minha vila de província onde o comércio é um sossego.

Bem sei, bem sei... Verdade seja que é a hora de almoço, ou de repouso, ou de intervalo.. Tudo vai bem pela superfície da vida. Eu mesmo durmo, ainda que me debruce da varanda, como se fosse a amurada de um barco sobre uma paisagem nova. Eu mesmo nem cismo, como se estivesse na província. E, subitamente, outra coisa me surge, me envolve, me comanda: vejo por detrás do meio-dia da vila toda a vida em tudo da vila; vejo a grande felicidade estúpida da vida doméstica, a grande felicidade estúpida da vida nos campos, a grande felicidade estúpida do sossego na sordidez. Vejo, porque vejo. Mas não vi e desperto. Olho em roda, sorrindo, e, antes de mais nada, sacudo dos cotovelos do fato, infelizmente escuro, todo o pó do apoio da varanda, que ninguém limpou, ignorando que teria um dia, um momento que fosse, que ser a amurada sem pó possível de um barco singrando num turismo infinito."


Bernardo Soares, in O Livro do Desassossego- Frag. 437.



Fotógrafo: Nuno Ramos




terça-feira, maio 06, 2008

Houve um poema.


Houve um poema,
entre a alma e o universo.
Não há mais.
Bebeu-o a noite, com seus lábios silenciosos.
Com seus olhos estrelados de muitos sonhos.

Houve um poema:
Parecia perfeito.
Cada palavra em seu lugar,
como as pétalas nas flores
e as tintas no arco-íris.
No centro, mensagem doce
E intransmitida jamais.

Houve um poema:
e era em mim que surgia, vagaroso.
Já não me lembro, e ainda me lembro.
As névoas da madrugada envolvem sua memória.
É uma tênue cinza.
O coral do horizonte é um rastro de sua cor.
Derradeiro passo.

Houve um poema.
Há esta saudade.
Esta lágrima e este orvalho - simultâneos -
que caem dos olhos e do céu.


Cecília Meireles





Imagem: Jimmy Williams

terça-feira, março 18, 2008

Confiança



Estação de maio

A salvação opera nos abismos.
Na estação indescritível,
o gênio mau da noite me forçava
com saudade e desgosto pelo mundo.
A relva estremecia
mas não era pra mim,
nem os pássaros da tarde.
Cães, crianças, ladridos,
despossuíam-me.
Então rezei: salva-me, Mãe de Deus,
antes do tentador com seus enganos.
A senhora está perdida?
Disse o menino,
é por aqui.
Voltei-me
e reconheci as pedras da manhã.

Adélia Prado.


Fonte: http://br.geocities.com/edterranova/adelia02.htm

sábado, agosto 18, 2007

























Tem dias que são assim. Luzes opacas quebrando a escuridão, janelas miúdas querendo te salvar do tédio dos dias. Cumprem seu papel, como todas as coisas inertes; assim como eu. Minha imaginação tenta, mas não consegue. Passar pelos vidros foscos, voar pelos ares livres. Não dá, não dá. É preciso algo mais do que a simples vontade. É preciso asas. As da liberdade. As minhas, não sei por onde andam. Talvez tenham desistido e procurado outro anjo.


Sandra Porto




Imagem: Vazios Rurais.
Fotógrafo: Paulo de Souza.



Fonte:
Imagem: http://www.1000imagens.com

quinta-feira, agosto 02, 2007

Remédio
























Remédio.

Abandonei as conquistas dos homens sem fé,
já que nenhuma delas me disse: és comum!
Tola vaidade. Acreditei na ilusão.

Abandonei a ilusão das visões iluminadas,
Já que homem comum sei quem sou: filho.
Servo apenas, aceito o que sou.

Hoje dou graças,
Por ser cego, comum e servo.
Nada mais exijo ou procuro.

E tudo tenho
E tudo vejo
E tudo encontro.


Sandra Porto.



Imagem: Afoxé.
Fotógrado: Everaldo Luis.


Imagem: http://eversilva.multiply.com/

terça-feira, julho 17, 2007





















Num pedaço de minha memória
Guardo pedaços de luz.

Brilham como vaga-lúmens
Que voam à noite nos campos
Quietos de vozes, repletos de sopros.

Minha mente está quieta
Meu coração, revolto
Em ondas de sal e azuis.

Olho às vezes para esta imagem
E não sei quem sou.
Se sonho ou se desperta,
Procuro os sinais.

Recorro aos deuses
E Eles me respondem
Em tantos piscares
Que fico cega.

Mas no fundo, no fundo
Só queria te ver.
E que você me visse
Tal como sou,
Sempre te amando.

Sandra Porto

Imagem: Uxia.
Fotógrafo: Luís Garção Nunes.


Fonte: http://fotomomento.blogspot.com/

terça-feira, março 13, 2007

Hora de Acordar



















Descansa.
O Homem já se fez
O escuro cego raivoso animal
Que pretendias.


(Via Vazia - VIII)

Hilda Hilst

Fontes:

Imagem: http://www.1000imagens.com/

Texto: http://www.angelfire.com/

terça-feira, janeiro 30, 2007

Primeira Criatura

























Uma das pessoas que vivem em mim (algum poeta já começou assim um de seus poemas - com todo respeito), tem uma alma de pura nobreza, coisa que não sei de onde vem, mas que gosto demais. Gosta de colecionar memórias e poemas, porque considera que as duas são a mesma coisa. As memórias ela guarda em caixas, grandes, bonitas e onde ninguém pode mexer. Lá dentro tem um pouco de tudo, desde pedaços de pétalas de flores secas e antigas, até as pinturas feitas pelas máquinas modernas que registram os instantes de seus entes, outras criaturas que, ou por ela foram criadas, ou que por ela foram adotadas como suas. Às vezes ela gostaria de morar dentro destas caixas, porque lá a vida não se deteriora e nem se desgasta com o tempo. De dentro delas, das caixas, quando foge deste mundo confuso, ela vai tecendo as sutis relações com as criaturas que fazem parte deste seu infinito particular, com se deusa fora, cosendo o que de melhor existe nelas e desfazendo aquilo que não lhe agrada e que torna seus queridos seres desumanos e tristes. Não tolera deselegâncias e coisas toscas. Toscas aqui não tem uma conotação estética, já que o tosco, algumas vezes, pode virar arte e quando assim lhe parece, considera contemplá-las com seu olhar compassivo e curioso. Os poemas, os deixa à mostra, feito as bandeirolas que os budistas fincam nos montes ou em frente aos seus templos deixados ao sabor dos ventos, para que as palavras de beleza e encanto se espalhem pelo cosmo e fecundem a o planeta que tanto ama. Seu nome é mistério. Ninguém o saberá até que ela considere que as criaturas possam ouvi-lo sem nenhum preconceito ou julgamento. Um dia, quem sabe...


Sandra Porto

03/01/2007

Imagem: Mãos.
Fotógrafo: Luís Garção Nunes.

Fonte: http://www.1000imagens.com/

quarta-feira, novembro 29, 2006

Gentilezas
























Penso em Rilke. Penso gentilezas. Penso vagalumes e silêncios. Penso no vislumbre dos cheiros das alfazemas que não conheço. Penso nos sabores dos frutos que ainda estão por vir e saboreio este antecipar de vida. A alegria não é um bem que se tem quando se quer. Ao pensar nas coisas que aqui sempre estarão, reconheço os alvoreceres da força da existência, independente do quanto possa me sentir morta. De todos aqueles que se sentem mortos. De todos aqueles e de todas as coisas que já não mais existem. Esta possibilidade de se saber antes do que sempre existirá, esta concretude de que nada depende daquilo que se percebe é reconfortante. Não há com que se preocupar. Rãs aparecerão pelas manhãs molhadas pela chuva e chapinharão nas poças suas patas saltitantes. Patos voarão nos céus procurando um lugar aonde poderão continuar suas livres vidas, sempre que a hora chegar. Folhas cairão, folhar irão nascer. Primaveras e outonos. Verões e invernos. Diferentes, talvez. Sempre serão. Não me importo mais. Confio.


Sandra Porto.

Imagem: Retratos de família.
Fotógrafo: Luís Pisco

quinta-feira, setembro 28, 2006

Corpo




















Sem saber o que dizer, me sinto. Nua de palavras e repleta de pensares, o corpo reclama de atitudes. Não tenho nada para lhe dar, espere, acalme-se, corpo rebelde que não quer ouvir. Corpo intranqüilo que sabe pedir, mas não sabe dar. Corpo sem rumo que se debate em sensações inominadas mas precisas e preciosas. Não me tenha como uma escrava de seus desejos. Há muito desacredito do impulso e das paixões, querendo apenas ouvir a voz que não se faz presente e que me traria a quietude. Não, não me venha com apelos inúteis. Calo-te como quem comete um ato sem pensar e se condena ao mais severo julgamento. Arrependimentos se fazem distantes e deprovidos de propósito, diante da decisão profunda de não querer te saber. Conheço-te mais sabiamente do que pensas e por isso, emudeço diante de tua voz estridente e contínua. Durma, companheiro dos caminhos percorridos há tanto tempo. Durma e me sonhe.


Sandra Porto.

Imagem: John Singer Sargent