quarta-feira, outubro 08, 2008

Suddenly Ananda.


Her face is a map of the world, is a map of the world
You can see she's a beautiful girl, she's a beautiful girl
And everything around her is a silver pool of light
People who surround her feel the benefit of it
It makes you calm
She'll hold you captivated in her palm

Suddenly I see this is what I wanna be
Suddenly I see why the hell it means so much to me
Suddenly I see this is what I wanna be
Suddenly I see why the hell it means so much to me

I feel like walking the world, like walking the world
You can hear she's a beautiful girl, she's a beautiful girl
She fills up every corner like she's born in black and white
Makes you feel warmer when you're trying to remember what you heard
She likes to leave you hanging on her world

Suddenly I see this is what I wanna be
Suddenly I see why the hell it means so much to me
Suddenly I see this is what I wanna be
Suddenly I see why the hell it means so much to me

And she's taller than most, and she's looking at me
I can see her eyes looking from the page in the magazine
She makes me feel like I could be a tower, big strong tower yeah

The power to be
The power to give
The power to see, yeah, yeah
She got the power to be
The power to give
The power to see, yeah, yeah
The power to be
The power to give
The power to see, yeah, yeah
She got the power to be
The power to give
The power to see, yeah, yeah



Fonte:

Música: KT Tunstall - Suddenly I see

Site: http://vagalume.uol.com.br/kt-tunstall/suddenly-i-see.html

segunda-feira, setembro 15, 2008

Ontem mesmo!

























"Fico tão cansada às vezes, e digo para mim mesma que está errado, que não é assim, que não é este o tempo, que não é este o lugar, que não é esta a vida. (...)então eu não sentia nada, podia fazer as coisas mais audaciosas sem sentir nada, bastava estar atenta como estes gerânios, você acha que um gerânio sente alguma coisa? quero dizer, um gerânio está sempre tão ocupado em ser um gerânio e deve ter tanta certeza de ser um gerânio que não lhe sobra tempo para nenhuma outra dúvida..."


Caio Fernando Abreu




Fonte: http://caio-fernando-abreu.blogspot.com/

quinta-feira, agosto 14, 2008

Luzes das Cidades



















Inéditos, os dias
Onde se inscrevem as letras
Sem nenhuma preguiça.

As letras fluem
A alma reflete
Almas nas letras.

Dias inéditos
Dias das luzes
Luzes nas almas.

Bons dias.


Sandra Porto.


segunda-feira, maio 12, 2008


"Há sossegos do campo na cidade. Há momentos, sobretudo nos meios-dias de estio, em que, nesta Lisboa luminosa, o campo, como um vento, nos invade. E aqui mesmo, na Rua dos Douradores, temos o bom sono.

Que bom à alma ver calar, sob um sol alto quieto, estas carroças com palha, estes caixotes por fazer, estes transeuntes lentos, de aldeia transferida! Eu mesmo, olhando-os da janela do escritório, onde estou só, me transmuto: estou numa vila quieta da província, estagno numa aldeola incógnita, e porque me sinto outro sou feliz.

Bem sei: se ergo os olhos, está diante de mim a linha sórdida da casaria, as janelas por lavar de todos os escritórios da Baixa, as janelas sem sentido dos andares mais altos onde ainda se mora, e, ao alto, no angular das trapeiras, a roupa de sempre, ao sol entre vasos e plantas. Sei isto, mas é tão suave a luz que doura tudo isto, tão sem sentido o ar calmo que me envolve, que não tenho razão sequer visual para abdicar da minha aldeia postiça, da minha vila de província onde o comércio é um sossego.

Bem sei, bem sei... Verdade seja que é a hora de almoço, ou de repouso, ou de intervalo.. Tudo vai bem pela superfície da vida. Eu mesmo durmo, ainda que me debruce da varanda, como se fosse a amurada de um barco sobre uma paisagem nova. Eu mesmo nem cismo, como se estivesse na província. E, subitamente, outra coisa me surge, me envolve, me comanda: vejo por detrás do meio-dia da vila toda a vida em tudo da vila; vejo a grande felicidade estúpida da vida doméstica, a grande felicidade estúpida da vida nos campos, a grande felicidade estúpida do sossego na sordidez. Vejo, porque vejo. Mas não vi e desperto. Olho em roda, sorrindo, e, antes de mais nada, sacudo dos cotovelos do fato, infelizmente escuro, todo o pó do apoio da varanda, que ninguém limpou, ignorando que teria um dia, um momento que fosse, que ser a amurada sem pó possível de um barco singrando num turismo infinito."


Bernardo Soares, in O Livro do Desassossego- Frag. 437.



Fotógrafo: Nuno Ramos




terça-feira, maio 06, 2008

Houve um poema.


Houve um poema,
entre a alma e o universo.
Não há mais.
Bebeu-o a noite, com seus lábios silenciosos.
Com seus olhos estrelados de muitos sonhos.

Houve um poema:
Parecia perfeito.
Cada palavra em seu lugar,
como as pétalas nas flores
e as tintas no arco-íris.
No centro, mensagem doce
E intransmitida jamais.

Houve um poema:
e era em mim que surgia, vagaroso.
Já não me lembro, e ainda me lembro.
As névoas da madrugada envolvem sua memória.
É uma tênue cinza.
O coral do horizonte é um rastro de sua cor.
Derradeiro passo.

Houve um poema.
Há esta saudade.
Esta lágrima e este orvalho - simultâneos -
que caem dos olhos e do céu.


Cecília Meireles





Imagem: Jimmy Williams

terça-feira, março 18, 2008

Confiança



Estação de maio

A salvação opera nos abismos.
Na estação indescritível,
o gênio mau da noite me forçava
com saudade e desgosto pelo mundo.
A relva estremecia
mas não era pra mim,
nem os pássaros da tarde.
Cães, crianças, ladridos,
despossuíam-me.
Então rezei: salva-me, Mãe de Deus,
antes do tentador com seus enganos.
A senhora está perdida?
Disse o menino,
é por aqui.
Voltei-me
e reconheci as pedras da manhã.

Adélia Prado.


Fonte: http://br.geocities.com/edterranova/adelia02.htm

sábado, agosto 18, 2007

























Tem dias que são assim. Luzes opacas quebrando a escuridão, janelas miúdas querendo te salvar do tédio dos dias. Cumprem seu papel, como todas as coisas inertes; assim como eu. Minha imaginação tenta, mas não consegue. Passar pelos vidros foscos, voar pelos ares livres. Não dá, não dá. É preciso algo mais do que a simples vontade. É preciso asas. As da liberdade. As minhas, não sei por onde andam. Talvez tenham desistido e procurado outro anjo.


Sandra Porto




Imagem: Vazios Rurais.
Fotógrafo: Paulo de Souza.



Fonte:
Imagem: http://www.1000imagens.com

quinta-feira, agosto 02, 2007

Remédio
























Remédio.

Abandonei as conquistas dos homens sem fé,
já que nenhuma delas me disse: és comum!
Tola vaidade. Acreditei na ilusão.

Abandonei a ilusão das visões iluminadas,
Já que homem comum sei quem sou: filho.
Servo apenas, aceito o que sou.

Hoje dou graças,
Por ser cego, comum e servo.
Nada mais exijo ou procuro.

E tudo tenho
E tudo vejo
E tudo encontro.


Sandra Porto.



Imagem: Afoxé.
Fotógrado: Everaldo Luis.


Imagem: http://eversilva.multiply.com/

terça-feira, julho 17, 2007





















Num pedaço de minha memória
Guardo pedaços de luz.

Brilham como vaga-lúmens
Que voam à noite nos campos
Quietos de vozes, repletos de sopros.

Minha mente está quieta
Meu coração, revolto
Em ondas de sal e azuis.

Olho às vezes para esta imagem
E não sei quem sou.
Se sonho ou se desperta,
Procuro os sinais.

Recorro aos deuses
E Eles me respondem
Em tantos piscares
Que fico cega.

Mas no fundo, no fundo
Só queria te ver.
E que você me visse
Tal como sou,
Sempre te amando.

Sandra Porto

Imagem: Uxia.
Fotógrafo: Luís Garção Nunes.


Fonte: http://fotomomento.blogspot.com/

terça-feira, março 13, 2007

Hora de Acordar



















Descansa.
O Homem já se fez
O escuro cego raivoso animal
Que pretendias.


(Via Vazia - VIII)

Hilda Hilst

Fontes:

Imagem: http://www.1000imagens.com/

Texto: http://www.angelfire.com/

terça-feira, janeiro 30, 2007

Primeira Criatura

























Uma das pessoas que vivem em mim (algum poeta já começou assim um de seus poemas - com todo respeito), tem uma alma de pura nobreza, coisa que não sei de onde vem, mas que gosto demais. Gosta de colecionar memórias e poemas, porque considera que as duas são a mesma coisa. As memórias ela guarda em caixas, grandes, bonitas e onde ninguém pode mexer. Lá dentro tem um pouco de tudo, desde pedaços de pétalas de flores secas e antigas, até as pinturas feitas pelas máquinas modernas que registram os instantes de seus entes, outras criaturas que, ou por ela foram criadas, ou que por ela foram adotadas como suas. Às vezes ela gostaria de morar dentro destas caixas, porque lá a vida não se deteriora e nem se desgasta com o tempo. De dentro delas, das caixas, quando foge deste mundo confuso, ela vai tecendo as sutis relações com as criaturas que fazem parte deste seu infinito particular, com se deusa fora, cosendo o que de melhor existe nelas e desfazendo aquilo que não lhe agrada e que torna seus queridos seres desumanos e tristes. Não tolera deselegâncias e coisas toscas. Toscas aqui não tem uma conotação estética, já que o tosco, algumas vezes, pode virar arte e quando assim lhe parece, considera contemplá-las com seu olhar compassivo e curioso. Os poemas, os deixa à mostra, feito as bandeirolas que os budistas fincam nos montes ou em frente aos seus templos deixados ao sabor dos ventos, para que as palavras de beleza e encanto se espalhem pelo cosmo e fecundem a o planeta que tanto ama. Seu nome é mistério. Ninguém o saberá até que ela considere que as criaturas possam ouvi-lo sem nenhum preconceito ou julgamento. Um dia, quem sabe...


Sandra Porto

03/01/2007

Imagem: Mãos.
Fotógrafo: Luís Garção Nunes.

Fonte: http://www.1000imagens.com/

quarta-feira, novembro 29, 2006

Gentilezas
























Penso em Rilke. Penso gentilezas. Penso vagalumes e silêncios. Penso no vislumbre dos cheiros das alfazemas que não conheço. Penso nos sabores dos frutos que ainda estão por vir e saboreio este antecipar de vida. A alegria não é um bem que se tem quando se quer. Ao pensar nas coisas que aqui sempre estarão, reconheço os alvoreceres da força da existência, independente do quanto possa me sentir morta. De todos aqueles que se sentem mortos. De todos aqueles e de todas as coisas que já não mais existem. Esta possibilidade de se saber antes do que sempre existirá, esta concretude de que nada depende daquilo que se percebe é reconfortante. Não há com que se preocupar. Rãs aparecerão pelas manhãs molhadas pela chuva e chapinharão nas poças suas patas saltitantes. Patos voarão nos céus procurando um lugar aonde poderão continuar suas livres vidas, sempre que a hora chegar. Folhas cairão, folhar irão nascer. Primaveras e outonos. Verões e invernos. Diferentes, talvez. Sempre serão. Não me importo mais. Confio.


Sandra Porto.

Imagem: Retratos de família.
Fotógrafo: Luís Pisco

quinta-feira, setembro 28, 2006

Corpo




















Sem saber o que dizer, me sinto. Nua de palavras e repleta de pensares, o corpo reclama de atitudes. Não tenho nada para lhe dar, espere, acalme-se, corpo rebelde que não quer ouvir. Corpo intranqüilo que sabe pedir, mas não sabe dar. Corpo sem rumo que se debate em sensações inominadas mas precisas e preciosas. Não me tenha como uma escrava de seus desejos. Há muito desacredito do impulso e das paixões, querendo apenas ouvir a voz que não se faz presente e que me traria a quietude. Não, não me venha com apelos inúteis. Calo-te como quem comete um ato sem pensar e se condena ao mais severo julgamento. Arrependimentos se fazem distantes e deprovidos de propósito, diante da decisão profunda de não querer te saber. Conheço-te mais sabiamente do que pensas e por isso, emudeço diante de tua voz estridente e contínua. Durma, companheiro dos caminhos percorridos há tanto tempo. Durma e me sonhe.


Sandra Porto.

Imagem: John Singer Sargent




Dança

























Fico diante do teclado esperando que as palavras apareçam. Procuro a espontaneidade que há muito me fazia sentar e escrever bobagens calorosas e infantis, escritas de uma pessoa que de mim se escondeu. Procuro encontrar nos cantinhos de meu ser o lugar das brincadeiras, das cartas de amor (embora elas sejam ridículas), dos sorrisos sem restrições e dos abraços apertados de tanto carinho que sufocam. Fico aqui esperando. Já entendo que nesta espera a angústia será sempre a mão provocadora de algum movimento. Qualquer um. Ele sempre vem e tenho paciência. Meus dedos percorrem o teclado de qualquer maneira, numa falta de jeito que dá dó. Deixo que as palavras se manifestem, querendo que meu julgamento saia da frente e que, sem nenhum murmúrio, as deixem falar. Desejo intensamente que brotem dos desertos sem vegetação e dos lagos carentes de água. Quero que elas venham e me tomem. Incorretas, sem esquadros, irrestritas. Apenas explosões. Pequenas talvez. Mas que provoquem estragos, que abram fendas, que engulam os resquícios da não vida que tenho em mim agora. Que elas me convençam de que não há carência de fechamentos. Que me proponham as pedras e as águas e as cores e os ventos. Que me apontem os pulsares entranhados da terra e os nascimentos de estrelas. Que me mostrem o poder dos ventos e das marés, dos rios e das chuvas e que me digam que o amor e o ódio são a mesma coisa. Que dancem na minha frente feito sufis, realizando a divindade em seus transes brancos e solitários. Que me emocionem e tragam lágrimas aos meus olhos. Que gritem nos meus ouvidos: Vá menina, vá!

E então curvarei minha cabeça, deitarei meu corpo despojado das tantas palavras que me alucinam e voarei por sobre o universo, despejando em cada coisa viva minha gratidão e o meu amor.

Sandra Porto.

Imagem: Último Capítulo
Fotógrafo: Marco Ricca.

quinta-feira, julho 27, 2006

Marés



















Tenho fases assim como as marés. Às vezes calma fico, e assim não me reconheço. Nestes tempos onde não me acho e onde todos a mim procuram sem encontrar, me espraio feito uma onda bebê nascida do ventre fértil de Iemanjá, e choro. Chorar rítmico, como se fora uma música composta pelos ventos leves que não querem nada além de refrescar as nossas peles ressecadas pelas dores do mundo. Um toar distante e baixinho, que só poucos seres conseguem ouvir. Aqueles seres que sabem ouvir qualquer coisa. Aqueles seres que ficam desgarrados da humanidade e que se acham fora dela porque ouvem. Ouvem e se reconhecem como seres distintos, que cantam baixinho junto com aquilo que escutam. Neste coro de anjos ilegítimos, e nestas marolas onde ninguém quer mergulhar, vejo a alegria. Então me torno brisa e água e terra e fogo. E mato a sede do mundo sem ternura. E fecundo a terra árida dos corações esquecidos. E queimo as amarguras das almas entristecidas. Depois fico quieta, bem quietinha.

Sandra Porto


Imagem: Gota. Foto trabalhada no Photoshop, por Sandra Porto.

quinta-feira, julho 13, 2006

Último Capítulo

























114

Estética do Artifício

“A vida prejudica a expressão da vida. Se eu tivesse um grande amor nunca o poderia contar. Eu próprio não sei se este eu, que vos exponho, por estas coleantes páginas fora, realmente existe ou é apenas um conceito estético e falso que fiz de mim próprio. Sim, é assim. Vivo-me esteticamente em outro. Esculpi a minha vida como a uma estátua de matéria alheia ao meu ser. Às vezes não me reconheço, tão exterior me pus a mim, e tão de modo puramente artístico empreguei a minha consciência de mim próprio. Quem sou por detrás desta irrealidade? Não sei. Devo ser alguém. E se não busco viver, agir, sentir, é - crede-me bem - para não perturbar as linhas feitas da minha personalidade suposta. Quero ser tal qual quis ser e não sou. Se eu cedesse destruir-me-ia. Quero ser uma obra de arte, da alma pelo menos, já que do corpo não posso ser. Por isso me esculpi em calma e alheamento e me pus em estufa, longe dos ares frescos e das luzes francas - onde a minha artificialidade, flor absurda, floresça em afastada beleza."


Bernardo Soares, in O Livro do Desassossego.
Imagem: Último Capítulo
Fotógrafo: Marco Ricca

quarta-feira, julho 12, 2006

Como uma flor vermelha.
















Como uma flor vermelha.

À sua passagem a noite é vermelha,

E a noite que temos parece

Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,

Mas o eco dos seus passos

Enche o ar de caminhos e de espaços

E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece

E o desconhecido cresce

Como uma flor vermelha.

Sophia de Mello Breyner, in Poesia, Obra Poética.

domingo, abril 16, 2006

Páscoa



















Nem ovos, nem coelhos. O dia amanheceu indeciso, sem saber se chovia ou se solria. O computador não gosta de neologismos. Para cada palavra inventada, um vermelho de repreensão. O micro não é artista. Trabalhador braçal, que sempre opera por argumentos de autoridade: faça isto ou faça aquilo. O micro não pensa. Igual a muitos de nós, que por um engano do pensamento, achamos que pensamos. Tudo por causa do solrir.

Voltando à Páscoa fria, decidiu-se a natureza pelo calor e pela luz, coisa que muito me alegrou, por conta da incerteza de comemorar ou não comemorar o renascer. Ficaria com a pulga atrás da orelha se a vida conspirasse contra a comemoração, causando-me uma dúvida pra lá de cartesiana, já que ando decidindo crer não só para ver. Crer não só para ver. As palavras são como espelhos d’água turva, que refletem ao avesso aquilo que não se quer dizer, o indizível, o que nem mesmo se sabe o que é a não ser pela sensação ou pela intuição, ao mesmo tempo sabendo-se exatamente aquilo que seja.

Páscoa flamenca. Não da dança, mais do time. Páscoa vermelha e negra. Páscoa de gritos e não de sussurros. Páscoa da torcida. Páscoa de Jorge. Salve, Jorge!

Não foi tão mau assim, como dizem os teens. Sensação de ressaca, preguiça de começar de novo e contar comigo. Será que vai valer a pena, ter amanhecido?


Sandra Porto

Imagem: Le vieux juif (Le vieillard), Pablo Picasso.





sábado, abril 08, 2006

Play it again, Sam! (1ª parte)




Como era mesmo o nome dele? Passado quase trinta anos, não conseguia se lembrar com tanta facilidade deste detalhe, mesmo acordando todas as manhãs ao seu lado. Olhava à sua direita, já que gostava de dormir do lado do coração - superstição, coisas de mulher, sabe-se lá – e tinha a mesma sensação de desconforto. Sentava-se na cama e com muito cuidado para não acordá-lo, descobria o corpo envolvido pelos lençóis. Observava de um jeito minucioso, como um detetive a descobrir as pistas de um crime, os detalhes que já vira mais de um milhão de vezes. Às vezes até reconhecia alguns como, por exemplo, a cicatriz da cirurgia do acidente de carro que quase o matara desprevenido, porque afinal de contas, a morte, quando quer aparecer, não avisa a ninguém mesmo, não é não? E também aquele cheiro! Conseguia lembrar mais dos cheiros das coisas do que das coisas em si. Não dava muita importância aos registros oficiais das pessoas, como nomes, sobrenomes, coisas do tipo, porque sempre mentiam sobre elas. Não confiava nas palavras escritas, ditas ou oficializadas. Mas os cheiros não. Confiava que cada coisa tinha seu aroma próprio. Sabia do cheiro dos medos, das alegrias, dos interesses escondidos e até dos pensamentos guardados no bem no fundo das almas das pessoas.

Sandra Porto

Fonte: Imagem: http://www.getty.edu

domingo, março 26, 2006

Ilógica



Precisou sair depressa para pegar um caderno onde pudesse jogar todos aqueles murmúrios que inundavam o quarto semi-iluminado pelo abajur de minarete que repousava ao lado de sua cama solitária. De vez em quando levava as mãos ao rosto para disfarçar o tumulto interno que aquela situação provocava. Dar-se à confissão deste momento como pulsante não era, realmente, o que a faria feliz. Pensava já ter passado – como um gato com suas nove vidas – facilmente por essa estranha sensação de nada a fazer. Mais uma vez amor...A sombra rápida e deslizante a convocava a cercar a questão com delicadeza e sobriedade embora não soubesse ao certo para que. Talvez estivesse a criar um novo hábito em substituição à tão conhecida fuga pela tangente, coisa que não mais satisfazia sua premente erupção em fogo e lava. O hábito não faz o monge, lembrou em desespero. Acreditava nestas coisas ditas de pai para filho, maldições seculares, heranças obscuras, assim, assim, terminando por se surpreender numa prisão de dogmas e crenças onde a chave para o libertas desaparecera fazia tempo. Quae sera tamen... Quem sabe o monge não usasse mais o hábito. Seria uma solução enquanto trocava as letras das palavras antes tão fáceis de se mostrarem através daquele lápis vermelho e negro. Estranha escrita, colorida e soturna.

Começara à toa, como achava que havia vivido até então, deixando que as frases nascessem sem muito pensar ou articular na lógica ou ausência dela, linguagem conclusiva, fechada, orientadora. Caso fosse surpreendida nesse instante por alguém curioso e inoportuno – condição natural ao sujeito – não saberia responder à questão alguma. A falta de objetividade às vezes a irritava profundamente. Era como se fosse lançada numa aventura sem mapa, bússola ou outra ferramenta qualquer de orientação. A noite também não a conduzia pelo deserto de si mesma, já que as estrelas se escondiam diante do tempo indeciso, confusas que ficavam diante da dualidade inverno e verão. Nada escapava a esta balança sem... A palavra faltara. Entendia pelo conhecimento anterior sobre os nomes das coisas que, para se ter a medida exata era preciso existir o ponto de sustentação de onde tudo partia e, certamente, para onde tudo voltaria. O fiel da balança. Quanta ironia, cogitava! A palavra ausente, traindo a quem a possuía, mostrara-se tão desleal quanto infiel. Prato cheio para uma análise, ato falho dentre todas as falhas de uma noite sem sono.

Sandra Porto

Imagem: CCB - Fotógrafo: Rui Romão

URL: http://ubbibr.fotolog.com/bichinhodafruta