quarta-feira, novembro 29, 2006

Gentilezas
























Penso em Rilke. Penso gentilezas. Penso vagalumes e silêncios. Penso no vislumbre dos cheiros das alfazemas que não conheço. Penso nos sabores dos frutos que ainda estão por vir e saboreio este antecipar de vida. A alegria não é um bem que se tem quando se quer. Ao pensar nas coisas que aqui sempre estarão, reconheço os alvoreceres da força da existência, independente do quanto possa me sentir morta. De todos aqueles que se sentem mortos. De todos aqueles e de todas as coisas que já não mais existem. Esta possibilidade de se saber antes do que sempre existirá, esta concretude de que nada depende daquilo que se percebe é reconfortante. Não há com que se preocupar. Rãs aparecerão pelas manhãs molhadas pela chuva e chapinharão nas poças suas patas saltitantes. Patos voarão nos céus procurando um lugar aonde poderão continuar suas livres vidas, sempre que a hora chegar. Folhas cairão, folhar irão nascer. Primaveras e outonos. Verões e invernos. Diferentes, talvez. Sempre serão. Não me importo mais. Confio.


Sandra Porto.

Imagem: Retratos de família.
Fotógrafo: Luís Pisco

quinta-feira, setembro 28, 2006

Corpo




















Sem saber o que dizer, me sinto. Nua de palavras e repleta de pensares, o corpo reclama de atitudes. Não tenho nada para lhe dar, espere, acalme-se, corpo rebelde que não quer ouvir. Corpo intranqüilo que sabe pedir, mas não sabe dar. Corpo sem rumo que se debate em sensações inominadas mas precisas e preciosas. Não me tenha como uma escrava de seus desejos. Há muito desacredito do impulso e das paixões, querendo apenas ouvir a voz que não se faz presente e que me traria a quietude. Não, não me venha com apelos inúteis. Calo-te como quem comete um ato sem pensar e se condena ao mais severo julgamento. Arrependimentos se fazem distantes e deprovidos de propósito, diante da decisão profunda de não querer te saber. Conheço-te mais sabiamente do que pensas e por isso, emudeço diante de tua voz estridente e contínua. Durma, companheiro dos caminhos percorridos há tanto tempo. Durma e me sonhe.


Sandra Porto.

Imagem: John Singer Sargent




Dança

























Fico diante do teclado esperando que as palavras apareçam. Procuro a espontaneidade que há muito me fazia sentar e escrever bobagens calorosas e infantis, escritas de uma pessoa que de mim se escondeu. Procuro encontrar nos cantinhos de meu ser o lugar das brincadeiras, das cartas de amor (embora elas sejam ridículas), dos sorrisos sem restrições e dos abraços apertados de tanto carinho que sufocam. Fico aqui esperando. Já entendo que nesta espera a angústia será sempre a mão provocadora de algum movimento. Qualquer um. Ele sempre vem e tenho paciência. Meus dedos percorrem o teclado de qualquer maneira, numa falta de jeito que dá dó. Deixo que as palavras se manifestem, querendo que meu julgamento saia da frente e que, sem nenhum murmúrio, as deixem falar. Desejo intensamente que brotem dos desertos sem vegetação e dos lagos carentes de água. Quero que elas venham e me tomem. Incorretas, sem esquadros, irrestritas. Apenas explosões. Pequenas talvez. Mas que provoquem estragos, que abram fendas, que engulam os resquícios da não vida que tenho em mim agora. Que elas me convençam de que não há carência de fechamentos. Que me proponham as pedras e as águas e as cores e os ventos. Que me apontem os pulsares entranhados da terra e os nascimentos de estrelas. Que me mostrem o poder dos ventos e das marés, dos rios e das chuvas e que me digam que o amor e o ódio são a mesma coisa. Que dancem na minha frente feito sufis, realizando a divindade em seus transes brancos e solitários. Que me emocionem e tragam lágrimas aos meus olhos. Que gritem nos meus ouvidos: Vá menina, vá!

E então curvarei minha cabeça, deitarei meu corpo despojado das tantas palavras que me alucinam e voarei por sobre o universo, despejando em cada coisa viva minha gratidão e o meu amor.

Sandra Porto.

Imagem: Último Capítulo
Fotógrafo: Marco Ricca.

quinta-feira, julho 27, 2006

Marés



















Tenho fases assim como as marés. Às vezes calma fico, e assim não me reconheço. Nestes tempos onde não me acho e onde todos a mim procuram sem encontrar, me espraio feito uma onda bebê nascida do ventre fértil de Iemanjá, e choro. Chorar rítmico, como se fora uma música composta pelos ventos leves que não querem nada além de refrescar as nossas peles ressecadas pelas dores do mundo. Um toar distante e baixinho, que só poucos seres conseguem ouvir. Aqueles seres que sabem ouvir qualquer coisa. Aqueles seres que ficam desgarrados da humanidade e que se acham fora dela porque ouvem. Ouvem e se reconhecem como seres distintos, que cantam baixinho junto com aquilo que escutam. Neste coro de anjos ilegítimos, e nestas marolas onde ninguém quer mergulhar, vejo a alegria. Então me torno brisa e água e terra e fogo. E mato a sede do mundo sem ternura. E fecundo a terra árida dos corações esquecidos. E queimo as amarguras das almas entristecidas. Depois fico quieta, bem quietinha.

Sandra Porto


Imagem: Gota. Foto trabalhada no Photoshop, por Sandra Porto.

quinta-feira, julho 13, 2006

Último Capítulo

























114

Estética do Artifício

“A vida prejudica a expressão da vida. Se eu tivesse um grande amor nunca o poderia contar. Eu próprio não sei se este eu, que vos exponho, por estas coleantes páginas fora, realmente existe ou é apenas um conceito estético e falso que fiz de mim próprio. Sim, é assim. Vivo-me esteticamente em outro. Esculpi a minha vida como a uma estátua de matéria alheia ao meu ser. Às vezes não me reconheço, tão exterior me pus a mim, e tão de modo puramente artístico empreguei a minha consciência de mim próprio. Quem sou por detrás desta irrealidade? Não sei. Devo ser alguém. E se não busco viver, agir, sentir, é - crede-me bem - para não perturbar as linhas feitas da minha personalidade suposta. Quero ser tal qual quis ser e não sou. Se eu cedesse destruir-me-ia. Quero ser uma obra de arte, da alma pelo menos, já que do corpo não posso ser. Por isso me esculpi em calma e alheamento e me pus em estufa, longe dos ares frescos e das luzes francas - onde a minha artificialidade, flor absurda, floresça em afastada beleza."


Bernardo Soares, in O Livro do Desassossego.
Imagem: Último Capítulo
Fotógrafo: Marco Ricca

quarta-feira, julho 12, 2006

Como uma flor vermelha.
















Como uma flor vermelha.

À sua passagem a noite é vermelha,

E a noite que temos parece

Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,

Mas o eco dos seus passos

Enche o ar de caminhos e de espaços

E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece

E o desconhecido cresce

Como uma flor vermelha.

Sophia de Mello Breyner, in Poesia, Obra Poética.

domingo, abril 16, 2006

Páscoa



















Nem ovos, nem coelhos. O dia amanheceu indeciso, sem saber se chovia ou se solria. O computador não gosta de neologismos. Para cada palavra inventada, um vermelho de repreensão. O micro não é artista. Trabalhador braçal, que sempre opera por argumentos de autoridade: faça isto ou faça aquilo. O micro não pensa. Igual a muitos de nós, que por um engano do pensamento, achamos que pensamos. Tudo por causa do solrir.

Voltando à Páscoa fria, decidiu-se a natureza pelo calor e pela luz, coisa que muito me alegrou, por conta da incerteza de comemorar ou não comemorar o renascer. Ficaria com a pulga atrás da orelha se a vida conspirasse contra a comemoração, causando-me uma dúvida pra lá de cartesiana, já que ando decidindo crer não só para ver. Crer não só para ver. As palavras são como espelhos d’água turva, que refletem ao avesso aquilo que não se quer dizer, o indizível, o que nem mesmo se sabe o que é a não ser pela sensação ou pela intuição, ao mesmo tempo sabendo-se exatamente aquilo que seja.

Páscoa flamenca. Não da dança, mais do time. Páscoa vermelha e negra. Páscoa de gritos e não de sussurros. Páscoa da torcida. Páscoa de Jorge. Salve, Jorge!

Não foi tão mau assim, como dizem os teens. Sensação de ressaca, preguiça de começar de novo e contar comigo. Será que vai valer a pena, ter amanhecido?


Sandra Porto

Imagem: Le vieux juif (Le vieillard), Pablo Picasso.





sábado, abril 08, 2006

Play it again, Sam! (1ª parte)




Como era mesmo o nome dele? Passado quase trinta anos, não conseguia se lembrar com tanta facilidade deste detalhe, mesmo acordando todas as manhãs ao seu lado. Olhava à sua direita, já que gostava de dormir do lado do coração - superstição, coisas de mulher, sabe-se lá – e tinha a mesma sensação de desconforto. Sentava-se na cama e com muito cuidado para não acordá-lo, descobria o corpo envolvido pelos lençóis. Observava de um jeito minucioso, como um detetive a descobrir as pistas de um crime, os detalhes que já vira mais de um milhão de vezes. Às vezes até reconhecia alguns como, por exemplo, a cicatriz da cirurgia do acidente de carro que quase o matara desprevenido, porque afinal de contas, a morte, quando quer aparecer, não avisa a ninguém mesmo, não é não? E também aquele cheiro! Conseguia lembrar mais dos cheiros das coisas do que das coisas em si. Não dava muita importância aos registros oficiais das pessoas, como nomes, sobrenomes, coisas do tipo, porque sempre mentiam sobre elas. Não confiava nas palavras escritas, ditas ou oficializadas. Mas os cheiros não. Confiava que cada coisa tinha seu aroma próprio. Sabia do cheiro dos medos, das alegrias, dos interesses escondidos e até dos pensamentos guardados no bem no fundo das almas das pessoas.

Sandra Porto

Fonte: Imagem: http://www.getty.edu

domingo, março 26, 2006

Ilógica



Precisou sair depressa para pegar um caderno onde pudesse jogar todos aqueles murmúrios que inundavam o quarto semi-iluminado pelo abajur de minarete que repousava ao lado de sua cama solitária. De vez em quando levava as mãos ao rosto para disfarçar o tumulto interno que aquela situação provocava. Dar-se à confissão deste momento como pulsante não era, realmente, o que a faria feliz. Pensava já ter passado – como um gato com suas nove vidas – facilmente por essa estranha sensação de nada a fazer. Mais uma vez amor...A sombra rápida e deslizante a convocava a cercar a questão com delicadeza e sobriedade embora não soubesse ao certo para que. Talvez estivesse a criar um novo hábito em substituição à tão conhecida fuga pela tangente, coisa que não mais satisfazia sua premente erupção em fogo e lava. O hábito não faz o monge, lembrou em desespero. Acreditava nestas coisas ditas de pai para filho, maldições seculares, heranças obscuras, assim, assim, terminando por se surpreender numa prisão de dogmas e crenças onde a chave para o libertas desaparecera fazia tempo. Quae sera tamen... Quem sabe o monge não usasse mais o hábito. Seria uma solução enquanto trocava as letras das palavras antes tão fáceis de se mostrarem através daquele lápis vermelho e negro. Estranha escrita, colorida e soturna.

Começara à toa, como achava que havia vivido até então, deixando que as frases nascessem sem muito pensar ou articular na lógica ou ausência dela, linguagem conclusiva, fechada, orientadora. Caso fosse surpreendida nesse instante por alguém curioso e inoportuno – condição natural ao sujeito – não saberia responder à questão alguma. A falta de objetividade às vezes a irritava profundamente. Era como se fosse lançada numa aventura sem mapa, bússola ou outra ferramenta qualquer de orientação. A noite também não a conduzia pelo deserto de si mesma, já que as estrelas se escondiam diante do tempo indeciso, confusas que ficavam diante da dualidade inverno e verão. Nada escapava a esta balança sem... A palavra faltara. Entendia pelo conhecimento anterior sobre os nomes das coisas que, para se ter a medida exata era preciso existir o ponto de sustentação de onde tudo partia e, certamente, para onde tudo voltaria. O fiel da balança. Quanta ironia, cogitava! A palavra ausente, traindo a quem a possuía, mostrara-se tão desleal quanto infiel. Prato cheio para uma análise, ato falho dentre todas as falhas de uma noite sem sono.

Sandra Porto

Imagem: CCB - Fotógrafo: Rui Romão

URL: http://ubbibr.fotolog.com/bichinhodafruta

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

A janela.















Aquela era uma janela antiga, com suas tábuas encravadas e tortas, sugerindo resistência e desistência ao mesmo tempo. Não se poderia saber ao certo a quê resistiram, pois a história muda de suas frestas só conseguiam suspirar baixinho os seus resmungos. Ao mesmo tempo, o diálogo leve e florido com as cortinas daquela casa aparentemente sem gente permanecia num querer fluido e sem jeito, na tentativa de reavivar a memória das coisas inertes que poderiam dar nexo ou mesmo contar na prosa viva dos tempos, os tropeços e esperas de alguém que, certamente, ali habitara...
E não era somente a janela que falava. Não era apenas a cortina florida que se balançava com o vento que entrava pelos buracos do vidro quebrado. A porta se abria para a entrada de qualquer coisa que pudesse trazer algo que lembrasse o que uma vez havia ali habitado: vida. E então por entre suas pernas tortas e finas de madeira, por entre os buracos esculpidos pelos cupins, entravam folhas e flores, formigas, gafanhotos e qualquer nuvem passageira que procurasse abrigo. Tudo era bem vindo e todos tinham passagem.

A pintura das paredes era por si só um capítulo à parte. Descamava de um lado, enquanto de outro procurava agarrar-se a todos os buracos do concreto que pulsava por baixo de todas as cores que já haviam sido empilhadas, uma por cima da outra, "mudanças de humor", como a dona que ali morara um dia gostava de chamar. E então a tinta soltava-se como pele, deixando à mostra apenas as cicatrizes de algo que havia se tornado (aos poucos) nada além do que as cinzas das brasas que arderam outrora (como quase tudo neste mundo...). E, como tudo se tornou -- cinza -- também as paredes mereciam o mesmo fim. Concreto aparecendo por baixo dos nacos grossos de camadas de humores, dia a dia sufocando a outra metade que se agarrava à esperança de que alguma coisa algum dia viria.
Sandra Porto.
Colaboração:Alessandra Archenar.
Fonte:

sábado, janeiro 14, 2006

A Dança




















"Mas depois que cantarolou a sua canção e se escondeu num apertado canto da sala, começou a provar a alegria de sua solidão. Tal alegria, que no começo da noite lhe parecera falsa e trivial, era como um ar acariciador, passando alegremente pelos seus sentidos, escondendo dos outros olhares a agitação febril do seu sangue, enquanto por entre os dançarinos que circulavam e por entre a música e as risadas, o olhar dela vinha direto ao seu canto, adulando-o, zombando, procurando, excitando seu coração."

James Joyce, in Retrato do Artista Quando Jovem, ed. Civilização Brasileira.

Fotografia: Henri Cartier-Bresson.

Fonte: http://www.bregler-fotografien.de

quarta-feira, novembro 30, 2005

Espelhos




















XLVI


Talvez eu seja
O sonho de mim mesma,
Criatura-ninguém
Espelhismo de outra
Tão em sigilo e extrema
Tão sem medida
Densa e clandestina

Que a bem da vida
A carne se fez sombra.

Talvez eu seja tu mesmo
Tua soberba e afronta.
E o retrato
De muitas inalcançáveis
Coisas mortas.

Talvez não seja.
E ínfima, tangente
Aspire indefinida
Um infinito de sonhos
E de vidas.

Hilda Hilst, in Cantares. Ed. Globo.
ue des Gobelins.
Fotógrafo: Eugenène Atget.


Fonte da Imagem: http://www.masters-of-photography.com

sexta-feira, novembro 25, 2005

As Cidades e as Coisas
















Exílio


Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades.


Sophia de Mello Breyner, in Poemas Escolhidos. Companhia das Letras.
Fotógrafo: Eugene Atget

Fonte: http://www.bregler-fotografien.de

sábado, novembro 19, 2005

O amor tem sabor.






















O Amor

Deus - talvez esteja aqui, neste pedaço de mim e de ti, ou naquilo que, de ti, em mim ficou. Está nos teus lábios, na tua voz, nos teus olhos, e talvez ande por entre os teus cabelos, ou nesses fios abstractos que desfolho, com os dedos da memória, quando os evoco.

Existe: é o que sei quando me lembro de ti. Uma relação pode durar o que quiser; será, no entanto, essa impressão divina que faz a sua permanência? Ou impõe-se devagar, como as coisas a que o tempo nos habitua, sem se dar por isso, com a pressão subtil da vida?

Um deus não precisa do tempo para existir: nós, sim. E o tempo corre por entre estas ausências, mete-se no próprio instante em que estamos juntos, foge por entre as palavras que trocamos, eu e tu, para que um e outro as levemos conosco, e com elas o que somos, a ansia efémera dos corpos, o mais fundo desejo das almas.

Aqui, um deus não vive sozinho, quando o amor nos junto. Desce dos confins da eternidade, abandona o mais remoto dos infinitos, e senta-se aos pés da cama, como um cão, ouvindo a música da noite. Um deus só existe enquanto o dia não chega; por isso adiamos a madrugada, para que não nos abandone, como se um deus não pudesse existir para lá do amor, ou o amor não se pudesse fazer sem um deus.



Nuno Júdice.

Fotografia: Lovers in Bistro, Gyula Halasz Brassai.

domingo, novembro 13, 2005

Tudo Passa


















"Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso às vezes, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como “estou contente outra vez”. Ou simplesmente “continuo”, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicídio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim – nós, não. Contidamente continuamos. E substituímos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”. Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência."
Caio Fernando Abreu, in Caio 3D: O essencial da década de 80, Ed. Agir.
Fotografia: Freezer, William Eggleston.

terça-feira, novembro 08, 2005

Iconoclastia


















Há imagens que vagueiam por dentro de nós, como se procurassem alguma coisa, ou apenasque as fixemos à realidade do ser. Como esses cães que correm pelos campos,sem destino certo, não se interessando sequer pelos coelhos que espreitam de dentro da terra, as imagens farejam um fumo longínquo, a mensagem nascida não se sabe de onde, e tentam traduzi-la: mas são mudas, limitando-se a movimentos vagos no ar do espírito. As imagens não trazem consigo nenhum significado, atropelam-se na precipitação das luzes, e nem a morte nem a vida lhes dão esse último sentido que a crença num deus poderá justificar. Então, parto essas imagens: uma a uma, com a lentidão monótona de quem sabe que esse trabalho é para ser feito, junto com os estilhaços no canto da casa, e admiro subitamente a brancura das paredes, o quadro limpo do céu por trás da janela, e tento esquecer o gemido, como se um animal ganisse para dentro, que nasce no fundo de mim, onde um gesto antigo me obriga a colar esses restos.

Nuno Júdice, in Por Dentro do Fruto a Chuva.
Imagem: Fitinhas, por Ananda Porto.

domingo, novembro 06, 2005

Deus é Naja.




















"Estás desempregado? Teu amor sumiu? Calma: sempre pode pintar uma jamanta na esquina.
Tenho um amigo , cujo nome, por muitas razões, não posso dizer, conhecido como o mais dark. Dark no visual, dark nas emoções, dark nas palavras: darkésimo. Não nos conhecemos a muito tempo, mas imagino que, quando ainda não havia darks, ele já era dark. Do alto de sua darkice futurista, devia olhar com soberano desprezo para aquela extensa legião de paz e amor, trocando flores, vestida de branco e cheia de esperança.
Pode parecer ilógico, mas o mais dark dos meus amigos é também uma das pessoas mais engraçadas que conheço. Rio sem parar do humor dele- humor dark, claro. Outro dia esperávamos um elevador, exaustos no fim da tarde, quando de repente ele revirou os olhos, encostou a cabeça na parede, suspirou bem fundo e soltou essa: -"Ai, meu Deus, minha única esperança é que uma jamanta passe por cima de mim..." Descemos o elevador rindo feito hienas.
Devíamos ter ido embora, mas foi num daqueles dias gelados, propícios aos conhaques e às abobrinhas. Tomamos um conhaque no bar. E imaginamos uma história assim: você anda só, cheio de tristeza, desamado, duro, sem fé nem futuro. Aí você liga para o Jamanta Express e pede: -"Por favor, preciso de uma jamanta às 20h15, na esquina da rua tal com tal. O cheque estará no bolso esquerdo da calça". Às 20h14, na tal esquina (uma ótima esquina é a Franca com Haddock Lobo, que tem aquela descidona) , você olha para esquina de cima. E lá está- maravilha!- parada uma enorme jamanta reluzente, soltando fogo pelas ventas que nem um dragão de história infantil.
O motorista espia pela janela, olha para você e levanta o polegar. Você levanta o polegar: tudo bem. E começa a atravessar a rua. A jamanta arranca a mil, pneus guinchando no asfalto. Pronto: acabou. Um fio de sangue escorrendo pelo queixo, a vítima geme suas últimas palavras: -"Morro feliz. Era tudo que eu queria..."
Dia seguinte, meu amigo dark contou: - "Tive um sonho lindo. Imagina só, uma jamanta toda dourada..." Rimos até ficar com dor na barriga. E eu lembrei dum poema antigo de Drummond. Aquele Consolo na Praia, sabe qual? "Vamos não chores / A infância está perdida/ A mocidade está perdida/ Mas a vida não se perdeu" –ele começa, antes de enumerar as perdas irreparáveis: perdeste o amigo, perdeste o amor, não tens nada além da mágoa e solidão. E quando o desejo da jamanta ameaça invadir o poema – Drummond, o Carlos, pergunta: "Mas, e o humor?" Porque esse talvez seja o único remédio quando ameaça doer demais: invente uma boa abobrinha e ria, feito louco, feito idiota, ria até que o que parece trágico perca o sentido e fique tão ridículo que só sobra mesmo a vontade de dar uma boa gargalhada. Dark, qual o problema?
Deus é naja - descobrimos outro dia.
O mais dark dos meus amigos tem esse poder, esse condão. E isso que ele anda numa fase problemática. Problemas darks, evidentemente. Naja ou não, Deus (ou Diabo?) guarde sua capacidade de rir descontroladamente de tudo. Eu, às vezes, só às vezes, também consigo. Ultimamente, quase não. Porque também me acontece – como pode estar acontecendo a você que quem sabe me lê agora - de achar que tudo isso talvez não tenha a menor graça. Pode ser: Deus é naja, nunca esqueça, baby.
Segure seu humor. Seguro o meu, mesmo dark: vou dormir profundamente e sonhar com uma jamanta. A mil por hora."
Caio Fernando Abreu.
Fotografia: Ananda Porto de Almeida

quinta-feira, outubro 27, 2005

Mini-Conto Oriental


Escuto teus ventos e tuas brisas. Quem dera fosse surda aos murmúrios do porto...
Meus dias são repletos de dúvidas e incertezas, como se fora um sibilo sem fim afetando a capacidade de responder aos apelos. Ensurdecedor este silêncio que me acaricia o pensar. Quando assim acontece, as possibilidades de respostas ficam assustadas, tal como as crianças que temem o abandono de suas mães e, desprotegidas, se escondem sob as fantasticamente seguras e invioláveis cobertas. O tempo também não se faz amigo nestas horas de resoluções implacáveis e às vezes se torna necessário burlá-lo para o retorno da contemplação alegre e pacífica. Por um ato de misericórdia dos deuses, a beleza e a delicadeza, que nascem dos divinos gestos jamais perdidos na memória dos imortais, são irmãs generosas, definitivamente instadas neste caduco existir. As letras, arrumadas de uma forma quase tocável, tornam-se autônomas, possuidoras de inteligência irrefreável e brilhante, rebeldes que são de seu criador. Fechando-se num modelo de complexa enquadratura, a narrativa fica impedida de continuidade.
O intervalo no tempo da vontade que originou a declaração tão fresca e benfazeja, sofre a ameaça nebulosa da perspectiva do abandono e do esquecimento. Nestes momentos o porto torna-se não crível. Perdida talvez a lembrança de tudo. Quem sabe? Certas coisas não são re-inauguráveis a não se pela insistência tola de um desejar compulsivo no existir de um sopro de vida que tenta, nas bravatas dos mares crespos e morenos que separam continentes e raças, se fazer ouvir. Aparecer e desaparecer, ao gosto dos ventos e das ondas pode ser uma solução provisória, mas oportuna. Embora o enjôo deste pendular acontecer contínuo, a sensatez precisa da legalidade a fim de construir caminhos sobre as águas. Soberba presunção! A nada se dirigem os dias de insanos esgares textuais, gerados a sopapos, no meio da tarde de sufocados vapores, querendo estar em qualquer lugar que não aqui!

O samurai, envolto em seu branco quimono, realiza a morte honrada. E resgata sua dignidade.



Imagem: Femme de Saint-Lazare par clair de lune, Pablo Picasso.

Fonte: http://csdll.cs.tamu.edu:8080/picasso







sexta-feira, outubro 21, 2005

Despertando
























Raio de luz
Caminho de estrelas
Mergulho o infinito
Assim é.

Pedaço de terra
Brotando as sementes
Doce alimento da vida.
Assim existo.

Fibras palpitando
Incessantes
Pedidos sem eco.
Assim sofro.

Música do espaço
Acordo meu sono
Eterno.

Desperto o amor.

Fonte: http://www.absolutearts.com




quarta-feira, outubro 05, 2005

O fotógrafo


























Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei.
Eu conto: Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa. Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carrega-dor?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral
de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi um lesma pregada na existência
mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no
olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a
desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou para mim que ela andava na
aldeia de braços com Maiakovski -seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma
roupa mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.


Manoel de Barros

Fotomontagem: Ananda Porto